Não acredito que uma imagem valha “mais do que mil palavras”. Não por qualquer razão quantitativa – imagens e palavras valem de modo qualitativamente diferente, o que não exclui, antes favorece, o seu envolvimento. O pequeno e fascinante livro que é Hiperpolítica (ed. Penguin, coleção Objetivamente, tradução de Diogo Vitor, 2026), de Anton Jäger, historiador do pensamento político e professor na Universidade de Oxford, escalpeliza as atuais formas de expressão e combate político, recorrendo “apenas” a uma imagem que, para todos os efeitos, nos toca pela intensidade física e vibração poética. Ou seja: uma fotografia intitulada Love (hands in hair) – à letra: “Amor (mãos no cabelo)” – obtida pelo alemão Wolfgang Tillmans em 1989.. Que estava a acontecer? Tillmans documentou as cidades de Londres, na era de Margaret Thatcher, e Berlim, por altura da Queda do Muro, no mesmo ano em que Francis Fukuyama anunciava o “fim da História”, prenunciando aquilo que seria (ou foi imaginado como) um tempo de superação de todos os assombramentos com que essa mesma História, com maiúscula, tinha marcado as gerações do século XX. Como escreve Jäger, “a câmara de Tillmans regista um exercício deliberado de amnésia coletiva: uma tentativa de exorcizar os fantasmas ideológicos do último século.”Jäger deteta aí um momento de confluência de tensões que nos conduziu ao misto de histeria e marasmo em que, agora, vivemos – ou somos obrigados a viver. A pergunta formulada na contracapa do livro não podia ser mais concisa: “O que acontece quando a política está em todo o lado, mas tudo parece ficar na mesma?”. Através de um inventário minucioso de acontecimentos de mais de um século, com destaque para o espaço político dos EUA, mas com múltiplas referências a países europeus, Jäger propõe um gráfico (literalmente) para descrever a evolução geral dos modos de compromisso político. Surgem, assim, quatro conceitos: “De forma esquemática, a política de massas representa a modalidade clássica da modernidade industrial, a pós-política coincide com a desindustrialização ocidental e uma nova fase de globalização, e a antipolítica é o fruto da gestão caótica da crise de 2008 e respetivas consequências. Algures na década de 2010, no período Trump-Brexit, surge a hiperpolítica.”."Vivemos numa histeria coletiva que, estranhamente, desvaloriza o próprio tecido social: Anton Jäger chama-lhe 'hiperpolítica'.".A hiperpolítica escapa ao enquadramento das instituições (estatais, partidárias, religiosas, etc.), ao mesmo tempo que instaura uma “excitação constante, embora descoordenada.” Daí a sua volatilidade emocional e ideológica, “relacionada com a crise de atenção característica da era do smartphone.” Principal vítima de tal agitação? O imaginário de esquerda, e a própria esquerda, atolada na noção determinista (no limite, teológica) da ação política como um caminho em linha reta para a concretização de um ideal mais ou menos utópico: “(...) a mobilização hiperpolítica da esquerda assemelha-se à detonação de uma bomba de neutrões: ainda há pouco, milhares de pessoas manifestavam-se numa praça – agora, desapareceram, deixando intacta a infraestrutura de poder que atacavam.”Sobreviver à fragmentação da hiperpolítica implica mais do que confrontar a inanidade de pensamento de uma classe política (esquerdas e direitas) que escolheu o ecrã televisivo como palco principal, quotidiano, dos seus atos. Será também necessário discutir a irresponsabilidade social das práticas televisivas que favorecem tal sonambulismo, ao mesmo tempo reavaliando a dialética individual/coletivo. Como recorda Jäger, há uma nova solidão, anónima e generalizada: “Antigamente, os indivíduos encontravam-se imersos em densas redes de contactos sociais e participavam num vasto conjunto de associações intermédias. As sociedades dos nossos dias são compostas por indivíduos cada vez mais atomizados e isolados.”