O Ministro da Administração Interna, Luís Neves, veio, recentemente, anunciar que solicitou ao diretor Nacional da Polícia de Segurança Pública (PSP) que identificasse todos os polícias que se encontram a desempenhar funções administrativas, e que devem passar para o terreno. E?Na verdade, vários ministros anteriores já vieram lançar este repto, fazendo o mesmo discurso público, que aponta para a necessidade de os elementos com funções policiais focarem o seu conhecimento e experiência na atividade diária de prevenção e combate ao crime. Este objetivo é assumido em quase todos os programas do governo dos últimos anos. Enquanto cidadão, e enquanto polícia, não posso estar mais de acordo. Mas já ouvimos este discurso antes, de António Costa a Miguel Macedo, sem que tenham sido colhidos reais resultados destas afirmações. E porquê?As funções policiais, por muito especializadas que são, carecem, sempre, da existência de recursos que possam assegurar a estrutura de apoio e suporte operacional. Na prática, alguém tem de processar e pagar os vencimentos. Alguém tem de assegurar a gestão orçamental e financeira, de uma instituição com mais de 20 mil pessoas. Alguém tem de levar a cabo a contratação pública, necessária para colocar combustível nos veículos que desenvolvem a atividade policial. Alguém tem de assegurar a modernização da instituição, por recurso ao financiamento europeu disponível. Alguém tem de gerir e desenvolver as plataformas e aplicações tecnológicas da polícia. Alguém tem de zelar pelas pequenas intervenções e preservação do nosso património. Mas quem?De facto, e sem embargo dos esforços que vêm sendo desenvolvidos pelas sucessivas direções da Polícia, ao contrário do que acontece nos demais organismos congéneres, o Governo teima em não criar uma carreira especial, ou um mecanismo legal, que permita à PSP atrair quadros técnicos do Estado, ou contratá-los fora da Administração, em condições de competitividade, para assegurarem as atividades que não carecem de empenho do nosso efetivo policial.Se olharmos para os departamentos da Autoridade Tributária e Aduaneira, por exemplo, ou para a Polícia Judiciária, perceberemos que estes organismos lograram criar carreiras especiais, de assistentes técnicos e de técnicos superiores, que auferem mais 30% ou 40% no seu vencimento, do que aqueles que pretendam vir trabalhar na PSP, em idênticas funções. Um problema que afeta todo o Ministério da Administração Interna, da GNR à ANSR, passando pela SGMAI, pela IGAI, e por tantos outros organismos e departamentos.Em consequência, e para usarmos apenas um exemplo, a Polícia Judiciária conseguiu alavancar mais de 70M€ em projetos de financiamento europeu. Projetos que vêm permitindo a modernização tecnológica, mas também a requalificação de infraestruturas daquela Polícia, com recurso, por exemplo, ao Fundo Ambiental. E como? Graças às largas dezenas (cerca de 70) de recursos humanos que foram contratados, com condições preferenciais e melhores remunerações remuneratórias, para ali desempenharem funções. Pois bem, no caso da PSP, temos menos de uma dezena de polícias, que trabalham nestas áreas, mas que acumulam com funções noutras unidades da PSP, com gratificados (para auferirem um pouco mais ao final do mês) ou com outras atividades colaterais.A pergunta subsiste, como pretende o Governo desonerar os polícias de funções administrativas se, na realidade, o Ministério da Administração Interna é um dos poucos, senão mesmo o único, ministério, ao nível nacional, que não tem uma carreira especial? Quem paga os vencimentos, faz os contratos públicos ou gere os fundos destinados à prevenção e combate ao crime, à segurança das fronteiras, ou outros?