Julgava-te incapaz de morrer. Acreditei até que descobriras o caminho da eternidade, um pacto com a vida que amaste até ao último suspiro. Escrevo-te sem saber se me lês, acredito que sim, sei que o farás. Passaste os olhos no que se publicou nos jornais do mundo? Muito impressionante, mas a maioria das opiniões, perdoa-me a ousadia, não te fizeram justiça nas duas primeiras linhas. Porque é impossível explicar-te sem sublimar o poder do teu sorriso ou a cumplicidade do teu modo de abraçar.Lembras-te da nossa viagem de barco pelo Tejo? Do queijo de Serpa que te convenceu, das conversas sobre a casa em Lisboa onde desejavas passar o verão, do teu deleite com o Vinho da Madeira, do que me ri quando contaste do motivo para Sartre se ter enfurecido? É público, mas irresistível tê-lo sabido na tua voz. O jornalista em quem confiavas atraiçoou-te e publicou o que lhe confessaras em voz baixa: “Sartre é um bom escritor, um comunicador sofrível e um péssimo filósofo.”Conhecias bem a ironia da vida. Na tua juventude eras considerado secundário pelos teus pares, as estrelas eram Sartre, Deleuze, Derrida, Foucault e Lacan. Tinhas a coragem de um passado na Resistência, a temeridade de teres abandonado o Partido Comunista por desejares ser livre, por saberes que não havia pensamento sem amarras se estivesses engajado. Vieste ao nosso Abril, mas os intelectuais portugueses só tinham olhos para Sartre e Beauvoir.Mas tu eras um gigante. Tinhas na cabeça um mapa de um sistema que não existia antes de o pensares, um mapa do pensamento que juntava o racionalismo à emoção, as Ciências Humanas às Exatas, a Literatura e a História à Biologia e à Física. Querias tudo, desejavas tudo, só não suportavas a contaminação do presente, a ditadura da superfície, o embuste da indignação. Consideravas-te tantas coisas: hispânico, judeu, grego, francês, mediterrânico.Amavas Paris, mas pensaste que seria uma boa ideia morrer em Lisboa. Adoravas Fez e Casablanca, mas perdias-te no Rio de Janeiro e em São Paulo, mas também em Atenas, Barcelona, Madrid ou Nova Iorque. Casaste-te com a maravilhosa Sabah, que te salvou do abismo da morte da mãe das tuas duas filhas, uma morte que julgaste ser o teu ponto final. Só que não, foi mesmo um ponto e vírgula, uma porta para um outro final feliz.Há dois meses, quando estive no Parlamento Europeu, telefonei a Sabah que me pediu para não te visitar - “quero que guardes a memória física do Edgar”. Percebi aí que nunca mais te tornaria a ver, que não te poderia dizer que me converteras a uma ideia de bem. Escolheste a primavera, a estação em que te conheci. A 29 de maio encerraste a história iniciada a 8 de julho de 1921.Foste um encantador de almas, um homem doce e inteligente. Recordas-te de quando te perguntei como te devia tratar? “Simplesmente Edgar”, enfatizaste antes de me beijar.Naquele teu gesto fizeste-me teu. Uma amizade antes da amizade, como se já existisse antes de existir. Confessei-to quando, apoiados um no outro, entrámos na Fundação Oriente. E a viagem de elétrico quando sopraste a palavra morte: “Manuel, explica-me lá uma coisa, se ainda tenho o pensamento organizado, se estou apaixonado e se amo a vida, porque tenho de morrer?” Ou quando comemos sardinhas, mas não te calavas com o sabor das batatas.Não sabia que te esquecerias um dia de acordar. Que não viverias para sempre. E tu não acreditavas que poderias continuar a ler no lugar onde agora estás. Ganhámos os dois, afinal.Eu, a tua memória eterna. E tu, uma outra vida. Até um dia, querido Edgar, meu amigo, o único que conheci assim, genial e livre. manuel.guerreiro@ccamtv.pt