Omais recente barómetro DN/Aximage trouxe conclusões relevantes sobre as tendências de voto entre os mais jovens, tal como o DN noticiou esta segunda-feira. Entre maio de 2025 e abril deste ano, o eleitorado dos 18 aos 34 anos alterou de forma significativa o seu mapa político: a AD desceu de 31,9% para 25,6%, o Chega caiu de 22,3% para 12,5%, enquanto IL, PS e Livre registaram subidas expressivas – de 8,8% para 17,3%, de 12,2% para 22,3% e de 6,1% para 14,8%, respetivamente. O ponto de viragem deu-se em outubro de 2025, no arranque da pré-campanha para as presidenciais e, desde então, a tendência consolidou-se.À falta de mais dados, resta tentar compreender o que pode estar por trás destas mudanças. Sabemos que o eleitorado jovem é, por natureza, mais volátil do que o das gerações mais velhas. Muda mais depressa de partido, reage com maior sensibilidade ao contexto económico e social e tende a valorizar a melhoria das suas condições de vida. Se há algumas décadas se alimentava a ideia de que os mais novos deviam estar gratos pelo país que herdavam, hoje cresce a perceção inversa: muitos jovens sentem que é o país que lhes deve respostas e não o contrário..No contexto atual, esta perceção traduz-se num desgaste evidente para a AD, que governa em minoria, num momento em que grande parte dos jovens continua a enfrentar dificuldades de entrada no mercado de trabalho, salários que não acompanham as suas expectativas e um acesso à habitação que permanece, para muitos, fora do alcance. Depois do ímpeto inicial, o Governo tem enfrentado obstáculos na concretização das reformas anunciadas, alimentando a sensação de que pouco mudará de substancial.Mais difícil de explicar é a queda acentuada do Chega entre os jovens. Poder-se-ia apontar o conservadorismo do partido em matérias de costumes, mas essa explicação não parece suficiente: há um ano, essas posições já existiam e não impediam o partido de captar parte significativa deste eleitorado. Uma hipótese alternativa é que o Chega esteja a ser cada vez mais percecionado como um partido de poder, associado a entendimentos pontuais com a AD. Para um segmento jovem que valoriza contestação, diferenciação e ruptura, essa aproximação pode reduzir o apelo do partido de André Ventura.."Seria precipitado retirar conclusões definitivas desta tendência. O que hoje parece uma tendência consolidada pode apenas ser um reflexo momentâneo de um país que tarda em responder às expectativas de quem está a começar a vida adulta.”.Em sentido inverso, a subida da IL poderá refletir o impacto de uma mensagem liberal que encontra eco num eleitorado mais individualista do que as gerações anteriores. Já o crescimento do PS e do Livre poderá estar relacionado com a perceção de ambos como forças de uma esquerda plural, moderada, ecologista e europeísta, atributos que, para muitos jovens, se tornaram mais relevantes do que as clivagens tradicionais entre esquerda e direita.Ainda assim, seria precipitado retirar conclusões definitivas desta tendência. Em primeiro lugar, porque, infelizmente, os jovens são cada vez menos no conjunto da população, o que limita o seu peso eleitoral. Em segundo, porque a juventude é, por definição, transitória - e o eleitorado jovem é menos fiel nas suas escolhas do que os votantes mais velhos. O que hoje parece uma tendência consolidada pode, amanhã, revelar-se apenas um reflexo momentâneo de um país que tarda em responder às expectativas de quem está a começar a vida adulta.