Os Estados Unidos já têm a China no retrovisor

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Isso estava longe de acontecer em 1986 quando trabalhei em Macau e me desloquei variadas vezes a Pequim para a cobertura jornalística das negociações para a Declaração Conjunta Luso-Chinesa que viria a ser assinada a 20 de Dezembro de 1999 e colocaria Macau na responsabilidade administrativa da República Popular da China.

Lembro-me de ver em Pequim uma das poucas lojas de eletrodomésticos importados do Ocidente com dezenas de chineses colados à montra a ver os aparelhos que existiam para venda. Da janela do hotel onde me hospedava, ao fim do dia, à hora da saída das fábricas, era possível ver uma massa uniforme e maciça de bicicletas de operários que regressavam às suas casas.

A imagem que recordo de Pequim era, então, uma cidade onde existiam apenas táxis amarelos, bicicletas e umas quantas motorizadas.

Pode não concordar-se com o regime autocrático na China e a ausência de liberdades individuais e eu não concordo. Mas há que reconhecer que, de 1986 até aos dias de hoje, impressiona o desenvolvimento que o país conseguiu, graças a uma enorme capacidade de organização e trabalho do seu povo.

A China está a caminho de se tornar a maior potência mundial e, hoje, já é visível no retrovisor dos Estados Unidos.

A análise de alguns parâmetros mostra isso mesmo. Embora o PIB nominal nos Estados Unidos seja de 30 biliões de dólares em 2025/26, superior ao da China que é de cerca de 20, se analisarmos o PIB por paridade de poder de compra a China está na frente com 40 biliões de dólares, face aos 30 dos Estados Unidos, ainda que o preço dos bens chineses seja bastante mais baixo.

O desenvolvimento chinês faz sentido se olharmos para o número de patentes registadas que, do lado chinês, é de 1,8 milhões enquanto nos Estados Unidos esse número não vai além dos 603 mil.

O mesmo se verifica com a produção industrial que em 2024/25 foi superior na China com o valor de 5,5 biliões de dólares, enquanto nos Estados Unidos era de 3 biliões de dólares. A China detém, assim, 31 % da produção mundial enquanto os Estados Unidos não passam dos 16%.

Na investigação cientifica há, igualmente, uma supremacia chinesa. O número de cientistas e investigadores é na China de 2,5 milhões enquanto os norte-americanos contam hoje, apenas, com cerca de 1,7 milhões de investigadores.

Existem alguns parâmetros que ainda mantêm a China no retrovisor dos Estados Unidos, mas o que se nota é uma evolução anual, muito rápida, dos chineses nesses mesmos parâmetros. É o caso das universidades. Os Estados Unidos têm um número superior de universidades (cerca de 4300) enquanto a China, em 2024, não ia além das 3000.

Em relação ao número de operários os chineses contam com cerca de 120 milhões, enquanto os Estados Unidos têm apenas 20 milhões. Isto é sinal de uma indústria chinesa mais pesada e com menor automação. Estes valores refletem, igualmente, uma diferença na produtividade das duas superpotências. Um trabalhador nos Estados Unidos produz dez vezes mais que um trabalhador chinês. Mas, também, aqui as coisas parecem estar a mudar para o lado chinês.

Na componente social é manifesto que o sistema de saúde chinês supera, em muito, o norte-americano. Este último é caro e desigual, enquanto a saúde chinesa caracteriza-se por um acesso gratuito e mais universal. Há na China um médico para cerca de 400 cidadãos enquanto nos Estados Unidos existe um médico para cada 380 norte-americanos. Depois, para o país do tio Sam, há o problema da dívida norte-americana. Os Estados Unidos somada a dívida privada, das empresas e famílias atinge os 35 biliões de dólares, equivalentes a 120% do PIB. Quanto à China adicionadas as dívidas dos governos locais, das construtores do imobiliário e dos bancos rondará os 57 biliões de dólares, qualquer coisa como 280 % do PIB. Contudo a dívida chinesa, é quase totalmente interna. Apenas 2,3 biliões de dólares, cerca de 13% do PIB chinês é exterior. O mesmo não acontece nos Estados Unidos com uma elevada divida externa em que o Japão é o primeiro detentor.

A dimensão que a China está ganhar constatou-se, mais uma vez, com as visitas de Trump e Putin. A China surge no panorama internacional como um eixo de credibilidade geoestratégica, responsável, cumpridora da ordem internacional, previsível, discreta e com uma diplomacia de qualidade.

Assim, um destes dias, talvez em breve, são os Estados Unidos que vão estar no retrovisor da China.

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