No princípio do ano, mais precisamente no mês de fevereiro, a revista The Economist lançou o seu índice de democracia, onde Portugal apresentou o seu pior resultado desde 2013 mas pouco, ou nada, se falou sobre este assunto. Afinal, qual a importância deste tema para se ganhar eleições?.Este índice, denominado este ano como a “era do conflito”, tem por base 5 critérios: o processo eleitoral e pluralismo, o funcionamento do governo, a participação política, a cultura política e as liberdades civis. Em praticamente todos os critérios Portugal apresentou uma queda face à avaliação anterior, tendo apenas melhorado na avaliação do critério relativo ao processo eleitoral e pluralismo e, por outro lado, não surpreendentemente, o critério que mais contribuiu para o retrocesso do nosso nível democrático foi o do funcionamento do governo..Continuamos a ser uma democracia com falhas e, 50 anos após a conquista da nossa liberdade, vivemos numa inércia de implementação de reformas que permitam a nossa concretização enquanto país..E é precisamente neste ponto que a reforma da Justiça se torna tão urgente e relevante no nosso presente, quanto determinante para o nosso futuro..Hoje, a Constituição da República Portuguesa (CRP) não se cumpre. Hoje, o acesso ao direito e aos tribunais, previsto na CRP, é condicionado pela condição económica de cada um. Hoje, o segredo de justiça, previsto na CRP, é constantemente violado. Hoje, as causas objeto de decisão não decorrem em prazo razoável, nem os processos em defesa das liberdades e garantias pessoais decorrem com a “celeridade e prioridade” devidas, como previsto na CRP. Hoje, a competência de um(a) político(a) não é determinada pelo seu impacto na vida das pessoas, mas sim por uma notícia na abertura de um telejornal. Hoje, a justiça falha e com ela falha o Estado de Direito Democrático..O país foi-se acomodando à situação de que nada funciona como previsto. .Aceitamos a degradação das instituições, que resultou na sua enorme falta de credibilidade e, assim, foi alimentando o sentimento de que não há verdadeira justiça em Portugal. Aceitamos que os nossos direitos, liberdades e garantias estejam muito bem assegurados na lei e que sejam proclamados “com pompa e circunstância”, mas que o seu cumprimento se tenha tornado a exceção e não a regra, passando a ser um “privilégio” de alguns..Passamos a um novo “normal” em que a competência e o sentido de estado passaram a ser a exceção e não a regra..Fomos desistindo de continuar a construção da nossa liberdade e, com isso, assistimos ao conformismo de que quem está ao serviço público prioriza os seus interesses pessoais e partidários face ao interesse público..Ficamos acomodados ao sentimento de que são sempre os mais “poderosos” a ganhar e que quem quer fazer o seu percurso com base no mérito fica à mercê da “sorte”. Resignamo-nos à perda do valor da palavra, assumindo que “todos(as) os(as) políticos(as) mentem”, julgando as pessoas em praça pública, mesmo antes da justiça se “pronunciar”..E, pior que tudo, começamos a assumir que para alguém estar na política não pode ser “demasiado sério(a)”, como se a seriedade tivesse passado a ser um defeito para quem quer estar ao serviço do país..Permitimos que o afastamento dos jovens dos partidos políticos não só se tornasse comum, como fosse incentivado. Quantas vezes não ouvimos que “os jovens já não querem saber da política”? E quantas vezes não vimos pais e amigos a aconselharem os mais novos a “não se meterem na política”? Afinal de contas, aceitamos que todos(as) passassem a ser “iguais”..Chegamos a um estado de degradação tal que tornou evidente que a falta de uma reforma na Justiça não é um problema geracional, mas sim um problema de regime. E, contrariamente ao que a maioria das pessoas pensa, nós, jovens, também nos preocupamos com os “velhos” problemas do país..Nós, jovens, não queremos depender da sorte para concretizarmos os nossos sonhos. Nós, jovens, não queremos um Estado que não garanta os nossos Direitos, Liberdades e Garantias..Nós, jovens, não queremos espectáculos mediáticos alimentados pela violação da nossa Constituição da República Portuguesa, que só contribuem para afastar os melhores da vida política e condicionar o serviço do país..Nós, jovens, não queremos que ninguém seja tratado com privilégios pela justiça, mas também que não queremos que ninguém seja à partida condenado pela sua participação política..É aqui que reside a importância do Manifesto Jovem pela Reforma na Justiça: a demonstração clara de que, também nós, jovens, somos parte da construção do Estado de Direito Democratico, pela nossa Liberdade..Economista, e ex-deputada do PSD, Subscritora do Manifesto Jovem pela Reforma da Justiça.