Que tipos de homens são estes que violam as próprias mulheres?

Margarida Vaqueiro Lopes

Editora-Executiva do Diário de Notícias

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Uma investigação recente da CNN Internacional expôs um site pornográfico que tem servido de tutorial para homens aprenderem a sedar e violar as mulheres e namoradas – tal como fez Dominique Pelicot, durante antos, à sua mulher.

Sob a secção “verificação ocular”, na página motherless.com, milhares de vídeos com conteúdo pornográfico associado ao sono foram enviados por utilizadores que não apenas consomem este tipo de conteúdo, mas que praticam este crime: drogam as suas mulheres ou namoradas, confirmam que estão inconscientes, violam-nas e, no final, publicam o vídeo em que mostram como outros o podem fazer.  Milhões de visitas revelam a extensão do crime e a normalização de um comportamento para o qual o adjetivo hediondo parece redutor. Nos chats – a CNN conseguiu infiltrar-se e durante meses acompanhou a atividade conseguindo mesmo identificar alguns dos utilizadores – havia até quem vendesse “líquido para dormir”, e quem partilhasse todo um manual de instruções para que outros homens pudessem violar as suas mulheres inconscientes.

O mundo, tão chocado com o caso Gisèle Pelicot, parece agora adormecido mesmo quando um caso desta dimensão é revelado. Mas para além de uma dormência que nos acomete a todos – eventualmente somos todos vítimas do tal entorpecimento psíquico sobre o qual o DN já escreveu aqui, quando os EUA atacaram o Irão – há algo sobre o qual precisamos de refletir urgentemente: que espécie de homens, de seres humanos, são estes, que não só praticam crimes como os expõem para comunidades de admiradores? E que mensagem passamos nós – pais, reguladores, polícia, juízes – se continuamos a deixar passar impunes este tipo de comportamentos?

À discussão sobre a falta de regulação de conteúdo online é urgente juntar uma outra: a de que tipo de sociedade estamos a construir quando deixamos de nos indignar ao descobrir que milhares (milhares!) de homens violam as suas mulheres pelo único prazer de as saber impotentes perante a sua vontade.

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