Um trabalho do jornalista Idálio Revez, no Público de 20 de agosto, retrata bem a história recente da expansão do turismo no Algarve associada ao desrespeito pela lei, pelo património natural e pelas pessoas, a propósito da zona do Vale da Telha, concelho de Aljezur, nas últimas décadas do século passado e até hoje. E também, igualmente conveniente, o tempo e o valor das decisões judiciais e dos processos administrativos autárquicos, todos concorrendo para um mesmo resultado. Fazendo parte desse resultado mais de 2000 casas construídas sem licença de habitação, num loteamento considerado ilegal pelos tribunais, falta de infraestruturas de saneamento e de tratamento de esgotos, abandono do espaço público e continuação das vendas das casas e dos terrenos para construção como se nada fosse, numa área que faz parte do Parque Natural do Sudoeste Alentejano e Costa Vicentina..Ao contrário do que é mais comum, este processo até teve dois autarcas condenados a penas de prisão, Manuel Marreiros e José Amarelinho, antigos presidentes da câmara municipal de Aljezur (e Marreiros atualmente vereador), apresentados por PS e PCP. E depois disso? “As vendas estão a sair muito bem”, diz um agente imobiliário da vila ao jornalista. E, portanto, não se deve agora continuar a perturbar a vida de toda a gente, ou seja, da empresa dona da urbanização ilegal, dos autarcas, dos vendedores imobiliários, dos compradores de boa e de má-fé. “A herdade, com uma área aproximada a 550 hectares – dimensão da cidade de Faro –, permanece no limbo da legalidade. Sentenças judiciais não foram cumpridas, ordens de demolição não acatadas, e centenas de pessoas reclamam a regularização do existente. ‘Há uma realidade jurídica complicadíssima’, reconhece o director do Departamento de Obras e Urbanismo municipal, (...) lembrando que o empreendimento se situa em área protegida”, escreve-se..Num país em que a cultura é a de fazer betão e assentar tijolo como sinónimo de sucesso pessoal e coletivo e de progresso local, a realidade será sempre complicadíssima, aceita-se o termo do diretor municipal, especialmente quando se incumpre a lei e as decisões dos tribunais..E não, não se está a falar de realojar milhares de pessoas que viviam em barracas no 25 de Abril em torno e dentro de Lisboa ou de criar habitação para milhares de regressados das ex-colónias. Estamos a falar de habitações para férias, numa área protegida, numa história que terá começado simplesmente, como tantas outras, naqueles ímpetos de cupidez e de impunidade que, para demasiados, são ainda vistos como sinal de iluminação pública e notória, neste nosso aparente shark tank afinal só de carapauzinhos e já fritos. Não posso garantir que, no caso, se tenha juntado a fome com a vontade de comer, mas....Também por isso, quanto mais se clama por regionalização e descentralização, deferindo poderes e autonomia crescentes a uma escala local, mesmo quando esta é demasiado frágil e dependente para a decisão pública, mais me convenço que a ferramenta mais útil de gestão aqui pelo baldio seria o tão impopular e desusado camartelo.