Não sei se ainda há memória das carteiras das escolas do antigamente, onde nos sentávamos dois a dois e seguíamos, melhor ou pior, as lições dos mestres. O certo é que o meu amigo Guilherme d’Oliveira Martins, desde que passámos a partilhar, com as nossas respetivas crónicas, esta mesma página do Diário de Notícias, passou a tratar-me por “companheiro de carteira”..Ser companheiro de carteira do Guilherme significa estar eu, aluno médio e aplicado, a partilhar o assento de um “urso”, como antigamente se chamava aos melhores alunos. A cultura do meu companheiro de carteira é tão ilimitada, como a sua curiosidade pelos livros e pela vida. A sua experiência de vida, política e cultural, é de uma riqueza que mereceria vários volumes de memórias..Saindo da metáfora dos ursos, animais pouco afins com a subtil delicadeza do meu companheiro e amigo, regresso a uma outra imagem do mundo animal, que vem de verso de Arquíloco que serviu de epígrafe e de título a um famoso livro de Isaiah Berlin sobre Tolstoi: “A raposa sabe muitas coisas, mas o ouriço sabe uma coisa grande.” Berlin usa esta ideia para dividir os escritores e os pensadores em duas categorias: os ouriços, que veem o mundo através de uma ideia central de que fazem o eixo do seu pensamento; e as raposas, que elaboram o seu pensamento baseando-o numa grande variedade de experiências e para quem o mundo não pode ser entendido numa única ideia. Tolstoi seria, para Berlin, “uma raposa por natureza, mas um ouriço por convicção”..Ora bem: e então a que categoria pertenceria o meu companheiro de carteira e melhor aluno da classe? Pela vastidão dos seus interesses e pelo pluralismo fundamental da sua visão do mundo, tenderíamos a encaixá-lo nas raposas; mas a firmeza inalterável da sua convicção de base (a cultura como pilar e garantia da nossa liberdade) leva-nos, como Berlin fez a Tolstoi, mas por razões bem diferentes, a considerá-lo também “raposa por natureza, mas ouriço por convicção”..Estas considerações, com metáforas zoológicas, partem do livro agora publicado por Guilherme d’Oliveira Martins, A Cultura Como Enigma (um belo título, em que transparece a longa camaradagem intelectual com Eduardo Lourenço, essa verdadeira raposa, que foi mestre de todos nós). O livro reúne e sistematiza várias intervenções em artigos de jornal, que aqui encontram o seu enquadramento e as suas extensões e complementaridades..Percorrer este livro com atenção constitui uma entusiasmante viagem à nossa cultura e à nossa História, sempre enquadradas nas culturas europeia e universal. No fim de contas, nós somos o que somos pelos múltiplos encontros e cruzamentos, pacíficos ou bélicos, com outros povos e outras culturas. A abertura ao outro é uma matriz da nossa cultura e da nossa identidade. Esta lição não pode ser esquecida..Mas há um outro aspeto nesta obra digno da nossa atenção: o respeito e o conhecimento que o autor revela e manifesta em relação aos grandes vultos da nossa cultura, tanto os que nos deixaram como os que felizmente continuam connosco..Este defensor intransigente do nosso património histórico nunca esteve ausente das questões e interrogações do tempo presente, nunca foi indiferente às necessidades e às angústias dos mais jovens. E cito aqui uma advertência sua de extrema atualidade: “Mais do que o Produto Interno ou o mero crescimento económico, importa considerar a inovação e o investimento reprodutivo” (p.70). E é um antigo ministro das Finanças que nos fala....A cultura como enigma é a esfinge a que procuramos incessantemente responder: e é nessa busca que nos descobrimos e descobrimos o mundo. Mas a cultura só pode viver na liberdade, aquela “liberdade livre” que Rimbaud proclamava, e sem a qual não existem, nem podem existir, os fundamentos de uma cidade justa..É nesta profunda consciência de que não pode haver pensamento sem ação, nem ação sem pensamento que assenta o perfil e o percurso de Guilherme d’Oliveira Martins. Diplomata e escritor