Depois da notícia do Financial Times de que, pressionado pelos EUA, estaria a planear organizar eleições em maio, juntamente com um referendo ao acordo de paz, Volodymyr Zelensky veio rejeitar ter qualquer intenção de anunciar a realização de eleições no próximo dia 24, quarto aniversário da invasão russa. “O dia 24 de fevereiro é uma data especial. Mesmo que houvesse a intenção ou medidas relevantes para antecipar as eleições, creio que seria uma ideia completamente estúpida utilizar essa data para falar de política”, afirmou o presidente ucraniano no X. Mantendo a posição que sempre defendeu, Zelensky escreveu “Repito: primeiro a segurança, depois a política. Podemos avançar para as eleições quando todas as garantias de segurança relevantes estiverem em vigor.”.Legalmente, a Ucrânia não pode convocar eleições enquanto estiver em vigor a Lei Marcial decretada após a invasão. As últimas presidenciais tiveram lugar em 2019, com o escrutínio previsto para 2024 adiado devido à guerra. Zelensky tem prolongado a Lei Marcial a cada três meses - a atual extensão termina a 4 de maio. Daí a notícia do FT falar em 15 de maio como data possível para a realização dos dois escrutínios, que Donald Trump vê como essenciais para cumprir o prazo de pôr fim à guerra até à primavera. A verdade é que até agora as condições no terreno não se alteraram. Ainda ontem um ataque russo durante a madrugada deixou mais de cem mil famílias sem eletricidade só em Kiev. E organizar eleições nestas condições, com, para além do mais, uma vasta fatia do leste do território ucraniano ocupado, seria uma missão quase impossível.Olhando para a História, em 1940, o Reino Unido - último bastião de resistência frente à Alemanha nazi após a queda da França - adiava as eleições, mas colocava no poder um Gabinete de Guerra liderado por Winston Churchill. A ida às urnas só ocorreria em julho de 1945, com a II Guerra Mundial terminada na Europa após a rendição alemã, mas com os combates a prosseguirem no Pacífico. Apesar de o Reino Unido já não ser bombardeado, milhares de soldados continuavam mobilizados. Com a população preocupada com o rumo do país no pós-guerra, o resultado não deixou de surpreender, com os britânicos a darem a vitória ao Labour de Clement Attlee, frente ao mítico Churchill.Quem já organizou eleições em tempos de guerra foram os EUA. Por exemplo, Abraham Lincoln conseguiu um segundo mandato em 1864 quando o país se encontrava ainda mergulhado na Guerra Civil. Com vários estados a terem decretado a secessão da União três anos antes, foram só 25 os que participaram na eleição.Quanto a Zelensky, garantiu: “Estamos prontos para as eleições. É muito simples: basta estabelecer um cessar-fogo e haverá eleições.” Votar é um direito fundamental, mas até para o exercer são necessárias condições mínimas.Editora-executiva do Diário de Notícias