O alfacinha ergueu a Lapa

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Júlio de Castilho foi o pai da Olisipografia. Lisboa Antiga e A Ribeira de Lisboa são duas obras fundamentais para conhecer Lisboa e os seus mistérios. José Sarmento de Matos seguiu-lhe os passos e deixou-nos uma notável herança que a Imprensa Nacional recordou num belo livro de Margarida de Magalhães Ramalho onde se evoca Um Abastecedor de Memórias. Quer em A Invenção de Lisboa, obra inacabada, quer em Uma Casa na Lapa, usufruímos de preciosas informações, fruto de aturado estudo, que nos permitem conhecer melhor a cidade, enquanto repositório inesgotável de um património riquíssimo.

Ouvimos o testemunho essencial de quem trouxe até nós o melhor conhecimento da cidade fantástica. “Tal como Cesário Verde, também gosto, de quando em vez, de andar por ‘boqueirões e becos’. Há melancolia a desprender-se da volumetria assimétrica, esguia, que nos encerra num dédalo ordenado por um pragmatismo sem regra aparente, como se andássemos por encanto a brincar às escondidas com a cidade, entre muros altos, vãos escuros e portas entreabertas, de onde se esgueiram gatos furtivos, sombras sugestivas e os sons estridentes de uma rádio barata. Palpita gente por ali.”

E há palavras estranhas a identificar os becos, como Penabuquel ou Maquinez, além das referências que geram equívocos - como a do Poço dos Negros, que não tem a ver com escravidão, mas com os monges negros de Cluny, vindos de Tibães.

Acontece que os padres Negros, diferentes dos beneditinos de Cister que tinham hábitos brancos, dispunham no limite sul da propriedade que circundava o Convento de S. Bento da Saúde, hoje Assembleia da República, de um poço farto, com preciosa água, que rapidamente puseram à disposição de uma vizinhança agradecida. Mas há muitos outros segredos.

“Se o poder engendrou a Baixa, podemos dizer que o alfacinha ergueu a Lapa.” A história da urbanização da encosta da Lapa ou de Buenos Aires (graças aos ventos de Monsanto) é notável. Dois proprietários dominavam a zona: o Convento de Nossa Senhora da Soledade, das freiras da Santíssima Trindade, mais conhecidas por Trinas, e o Real Mosteiro das Comendadeiras da Ordem de Santiago.

As religiosas das Trinas pensaram em urbanizar as suas terras logo depois do terramoto e começaram a remir foros antigos em 1756. “Avaliadas as hipóteses do terreno, esquadrinhavam-se as indispensáveis ruas, tão retilíneas quanto o relevo e os limites da propriedade o permitiam, e devidamente hierarquizadas pela sua importância dentro da economia do projeto - mais largas as principais, mais estreitas as secundárias, ou travessas. Depois a cordel, marcava-se o alinhamento dos edifícios que cada um ergueria a seu modo, no talhão que as disponibilidades do bolso tinham permitido aforar.”

Em seguida, erguiam-se as paredes mestras encostadas ao vizinho. Era arquitetura eficaz, como no Bairro Alto, em Santa Catarina, no Mocambo ou na Madragoa e agora na Lapa, sob o olhar crítico do engenheiro-mor Manuel da Maia - “vai-se edificando sem ordem, nem simetria...”

Mas as histórias multiplicam-se, até à de João Fernandes de Oliveira, o contratador de Diamantina, apaixonado pela antiga escrava Chica da Silva, que viria a tornar-se senhor da Casa da Lapa, na Rua do Sacramento, futuro Liceu e sede atual da FLAD. O livro é essencial e a memória de José inesquecível.

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