Ai dos vencidos!

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No fim da guerra civil russa, em Novembro de 1920, a resistência na Crimeia, comandada por Pyotr Wrangel, foi vencida pelos bolcheviques de Frunze. Wrangel organizou a evacuação por mar para Constantinopla dos seus homens, mas houve combatentes anticomunistas que acreditaram nas propostas de amnistia e se renderam. Mal sabiam  que estavam prestes a ser metralhados, fuzilados, queimados vivos ou afogados.

A comandar o Terror Vermelho na Crimeia estava Béla Kun, líder da efémera ditadura bolchevique na Hungria, em 1919. Kun escapara do seu país e tomara a direcção comunista na Crimeia, juntamente com Rosalia Zenlyachka, uma burguesa abastada de Kiev. Foram Kun, Rosalia e o chefe da Tcheka local que decidiram a morte dos oficiais que se tinham rendido de boa fé. E foi Rosalia, a comissária, que pondo todo o seu empenho e criatividade ao serviço de um “amanhã cantante”, deu os primeiros passos para “fazer do passado tábua rasa” – ora amarrando oficiais aos pares em tábuas para os queimar vivos, ora metendo-os em barcaças para os afundar ao largo. 

Da realidade à ficção

Nikita Mikhalkov, um realizador russo que se tornou conhecido no Ocidente pelos prémios que ganhou em Veneza e em Cannes (Melhor Filme Estrangeiro com Sol Enganador em 1994) conta esta história em Dias Quentes do Império (Solnechnyy Udar, no original e Sunstroke na versão inglesa).

O filme é de 2014, mas Mikhalkov inspirou-se no diário Dias Malditos e no conto Um Golpe de Sol, de Ivan Bunin, o primeiro escritor russo a ganhar o Prémio Nobel da Literatura, em 1933. Bunin vinha de uma família nobre arruinada que tivera de fugir da Rússia para escapar ao genocídio de classe dos comunistas.
No filme de Mikhalkov, entre os oficiais czaristas que se entregam confiando na amnistia, há um capitão ensimesmado e sonhador que volta recorrentemente ao Verão de 1907 para reviver uma paixão inesperada e impossível. Na fugaz aventura com a desconhecida, o capitão conhecera o comissário político que vemos depois a receber a sua rendição.

É uma bela fita, sobretudo no contraste do mundo da guerra civil perdida e dos oficiais cativos e destinados à morte com a douceur de vivre da velha Rússia de 1907. Douceur de vivre para a “burguesia”; não para os camponeses e proletários das cidades onde arrancava a indústria e havia de chegar a revolução.

Em 1907 estava há um ano no poder Pyotr Stolypine, um conservador lúcido e modernizante, empenhado em reformas de fundo, que acabaria assassinado em Kiev por Dimitri Bogrov, um jovem anarquista de família burguesa. Alexandre II, o czar libertador dos servos, também fora assassinado pelos anarquistas, que não gostavam de reformadores.

Em fim de filme, os confiantes oficiais anticomunistas que, sem o saberem, caminhavam para a morte, interrogavam-se sobre as razões do fim da velha Rússia – para concluírem que fora entre Darwin, a crise da fé cristã  e a crítica corrosiva dos grandes escritores do século XIX, de Tolstoi a Tchekhov, que a antiga sociedade ruíra.

Hoje, vencidos, perdoados e esquecidos os vencedores de então, quase nos esquecemos de que não foi ficção, e que na Rússia real da revolução não houve para os vencidos qualquer espécie de perdão. 

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