Opacidade privada

Paulo Guinote

Professor do Ensino Básico

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De acordo com algumas notícias surgidas após a divulgação das primeiras conclusões do Projecto LER, patrocinado pelo Edulog, em termos de leitura a “vantagem de colégios face a escolas públicas anula-se quando a escolaridade dos pais é igual”. Este tipo de constatação, que pode ser evidente para quem o modo como funciona o nosso sistema educativo, que é duplamente dual (temos a dualidade público/privado, mas também a de natureza económica), parece suscitar algum espanto numa opinião pública há muito intoxicada com a propaganda em torno da superioridade do ensino privado e contraria a opinião publicada nesse sentido.

Pelos vistos, a vantagem dos estabelecimentos de ensino privado nos rankings não está na sua especial qualidade ao nível da gestão pedagógica ou dos recursos humanos, mas na situação económica da clientela que angaria para as suas instituições. Comparando-se alunos com condições materiais e culturais similares, os resultados não diferem.

Isto são más notícias para o lobby privado na Educação e não devem demorar as análises destinadas a contrariar estas evidências. Afinal, há muitas centenas de euros envolvidas nas mensalidades que certas “famílias” pagam com o fundamento de quererem um ensino de “melhor qualidade” do que o das escolas públicas. O que este estudo coloca em causa, a partir dos primeiros anos de escolaridade. As desigualdades partem nos contextos familiares, não se criando nos contextos escolares, mesmo se estes as podem reproduzir ou agravar.

Se observarem com atenção, os rankings anuais de escolas apresentam uma informação muito assimétrica nos chamados “dados de contexto”, pois as escolas privadas não fornecem as informações de natureza socio-económica das famílias dos seus alunos, enquanto as públicas o fazem. E não deixa de ser interessante constatar que quem, de forma legítima, tanto lutou pela divulgação dos resultados das escolas públicas, faz agora tudo por ocultar os dados dos alunos do ensino privado, impedindo a comparação do que é comparável.

Quando surgiu há dias um estudo da OCDE a destacar a qualidade pedagógica dos professores portugueses, houve quem fizesse de tudo por apoucar a investigação e, sem especial subtileza, amesquinhar as suas conclusões, ao que parece porque o estudo incidiu principalmente sobre os docentes da rede pública. O tom jocoso de um representante do ensino privado nas redes sociais apoiou-se em observações deste ou aquele especialista que se apressou a destacar que a amostra não era de boa qualidade e que não devíamos comparar-nos com países como a Polónia, os Estados Unidos ou o Chile. Mesmo se estes países já foram apresentados, em diferentes contextos políticos, como exemplos a seguir.

O ministro mostrou-se surpreendido, quiçá por influência do seu secretário que, há uns anos, ficou conhecido por uma prosa opinativa em que classificou os professores portugueses como irremediavelmente maus. Ao que parece, as evidências colhidas contrariam certas narrativas destinadas a promover os interesses privados na Educação e não duvido que surjam teorizações sofisticadas para demonstrar que nada disto é assim ou que tudo não passa de uma correlação casual. Claro que tudo poderia ser esclarecido se os interesses privados adoptassem como sua a virtuosa transparência que tanto exigiram à educação pública. Em nome da coerência e de um decoro mínimo.

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