O tabuleiro está a começar a mexer?

Filipe Alves

Diretor do Diário de Notícias

Publicado a

Há sinais que, quando se repetem, deixam de ser ruído e passam a ser tendência. O barómetro DN/Aximage divulgado na passada sexta-feira, cuja segunda parte publicamos nesta segunda-feira, voltou a mostrar o essencial: o PS lidera pelo segundo mês consecutivo, com 30,6%, contra 24,3% da AD e 23,6% do Chega, após a distribuição dos indecisos. No mesmo dia, a sondagem da Intercampus para o Correio da Manhã e canal Now confirmou o mesmo movimento. Não se trata de um acaso estatístico; é um padrão que ganha consistência e que não pode ser ignorado, apesar de continuar a existir uma situação de empate técnico, tendo em conta as margens de erro das sondagens, na ordem dos 4%.

O que parece estar a desenhar-se é uma recuperação do PS. Não é um terramoto político, mas um pequeno abalo capaz de fazer mexer o tabuleiro. E surge num momento em que o Governo enfrenta um contexto internacional complexo, cujo impacto económico ainda não é possível avaliar com rigor, mas que já está a fazer-se sentir por via do aumento do custo de vida. Os tempos que se aproximam não serão fáceis e o Executivo minoritário liderado por Luís Montenegro terá de executar o seu ambicioso programa de reformas em contrarrelógio, enquanto gere os efeitos de uma crise externa e enfrenta oposição crescente no Parlamento, à esquerda e à direita.

"As duas sondagens demonstram que José Luís Carneiro tem beneficiado do movimento pendular do eleitorado do Centrão, que ora se aproxima do PS, ora se desloca para o espaço político do PSD e da AD."
"As duas sondagens demonstram que José Luís Carneiro tem beneficiado do movimento pendular do eleitorado do Centrão, que ora se aproxima do PS, ora se desloca para o espaço político do PSD e da AD."Paulo Spranger

Convém recordar que, em Portugal, as eleições continuam a decidir-se ao centro, apesar da crescente polarização. É no centro que se joga a vitória e é aí que ainda se perde o poder. As duas sondagens demonstram que José Luís Carneiro tem beneficiado do movimento pendular do eleitorado do Centrão, que ora se aproxima do PS, ora se desloca para o espaço político do PSD e da AD. Ainda é cedo, porém, para afirmar que esta tendência será irreversível. Mas importa sublinhar que a recuperação do PS não era inevitável. Resulta de uma liderança que recentrou o partido e o devolveu a uma matriz de moderação, aproximando-o do eleitorado que decide eleições. É um caminho coerente com o período pós-Geringonça, em que a esquerda e a extrema-esquerda perderam relevância eleitoral.

A exceção parece ser o Livre, que sobe no barómetro DN/Aximage (de 4,2% em março para 5,8% em abril), embora continue a jogar num registo mais identitário. Se o PS e o Livre mantiverem estas trajetórias, a sua relação futura poderá ganhar relevância no debate político.

E o Chega? As duas sondagens sugerem que o partido de André Ventura estabilizou a sua trajetória ascendente. E isso merece duas notas.

"A recuperação do PS surge numa altura em que o Governo minoritário de Luís Montenegro tenta executar o seu ambicioso programa de reformas em contrarrelógio e enquanto gere os efeitos de uma crise internacional.”

A primeira é que o Chega pode estar a aproximar-se do limite do seu potencial de crescimento, se mantiver o atual registo político. O que acontece no plano internacional não ajuda. Não por acaso, figuras da direita populista europeia, como Giorgia Meloni, têm adotado discursos moderados e até pró-europeus. O mundo está perigoso e os discursos antissistema podem fazer ricochete eleitoral.

A segunda nota é que, para o Chega, a ultrapassagem da AD pelo PS não é negativa. Pelo contrário. Aumenta a pressão sobre o PSD para ponderar um entendimento à direita, caso o PS vença as próximas eleições legislativas sem maioria. Quanto mais fraco estiver o PSD, mais forte ficará o Chega, mesmo que não ultrapasse o primeiro pela direita. Basta que juntos tenham maioria, para que a liderança do PSD fique sob forte pressão para deixar cair o “não é não” e inviabilizar um governo minoritário do PS.

Diário de Notícias
www.dn.pt