O que vão Xi e Trump falar sobre Taiwan?

Leonídio Paulo Ferreira

Diretor-adjunto do Diário de Notícias

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Durante a Segunda Guerra Mundial, os Estados Unidos e a China foram aliados contra o Japão. Os Flying Tigers, voluntários americanos que pilotavam aviões pintados com as cores chinesas, chegaram ainda antes do ataque a Pearl Harbor, que em dezembro de 1941 pôs oficialmente Japão e Estados Unidos em estado de guerra. E o generalíssimo Chiang Kai-shek, que chegou a reunir-se no Cairo com Franklin Roosevelt e Winston Churchill, conseguiu com toda a naturalidade que a China fosse considerada em 1945 um dos vencedores da Segunda Guerra Mundial.

Essa China de Chiang era formalmente a República da China, que hoje controla apenas Taiwan e mais algumas pequenas ilhas. Depois de terem juntado forças contra a invasão japonesa, os nacionalistas de Chiang e os comunistas de Mao Tsé-tung voltaram a combater entre si e estes últimos ganharam a guerra civil chinesa, proclamando a República Popular da China em 1949. Chiang refugiou-se em Taiwan.

A divisão da China data, pois, dos primórdios da Guerra Fria. O ano de 1949 foi especial: fundação da NATO, primeiro teste atómico da União Soviética, triunfo do comunismo na China. Um ano antes, o bloqueio soviético de Berlim tinha já oposto o Bloco Ocidental ao Comunista; um ano depois, o início da Guerra da Coreia tirava quaisquer dúvidas de que as próximas décadas seriam de confronto ideológico entre as superpotências, com a vitória dos Estados Unidos e a desagregação da União Soviética a dar-se em 1991.

Curiosamente, uma situação gerada logo no início da Guerra Fria, a divisão da China, marca hoje a relação entre os Estados Unidos e o seu novo grande rival, a superpotência em ascensão chamada República Popular da China. O futuro de Taiwan, que Pequim reivindica, será certamente um dos temas da visita de Donald Trump à China. Desde 1979 que Washington reconhece a República Popular da China como legítima representante do povo chinês, mas mantém mesmo assim a República da China como aliada, com um compromisso de defesa que é deliberadamente vago, mas inclui venda de armamento, para desagrado chinês.

Aliás, toda a situação em torno de Taiwan é dúbia, pois a ilha não só nunca proclamou a independência como mantém o nome oficial, que no tempo de Chiang significava uma reivindicação sobre toda a China. E se os aliados formais, em termos de reconhecimento diplomático, são uma mera dúzia, a ilha mantém relações económicas com a maior parte dos países, até por ser uma grande potência tecnológica, basta pensar que é o maior produtor de chips. A própria natureza democrática do sistema político, que só foi possível construir depois da morte do generalíssimo, atrai simpatias para Taiwan, sobretudo quando é ameaçada de anexação pela força pela China.

Xi Jinping não esconde que gostava de ser o unificador final da China. Hong Kong, colónia britânica desde o século XIX, e Macau, território controlado pelos portugueses desde o século XVI, regressaram à mãe-pátria em 1997 e 1999, respetivamente. O mérito foi de Deng Xiaoping, que criou a fórmula “um país, dois sistemas”, um período de 50 anos para que os dois territórios se adaptassem sem traumas à reintegração. Mas essa fórmula, que em Hong Kong não está a funcionar como previsto, não chega para tentar convencer os taiwaneses. E o Partido Democrático Popular, no poder em Taipé, beneficia de um crescente sentimento de identidade taiwanesa para, com todas as cautelas definidas pelo presidente Lai Ching-te, ir reforçando a tese da independência formal. Na oposição, o Kuomintang, o partido nacionalista que foi o de Chiang, defende uma relação amigável com Pequim, e a sua líder, numa recente visita à China, encontrou-se com Xi. Cheng Li-wun até falou do povo chinês nos dois lados do estreito de Taiwan, enquanto Xi, num encontro formalmente entre líderes partidários, falou de todos serem chineses.

A visita da senhora Cheng a Pequim desagradou ao governo de Taipé, e também não foi consensual no Kuomintang. Mas de certo modo reforçou a ideia de que para garantir a paz no imediato nada melhor do que a manutenção do status quo, ou seja a ideia de que existe uma só China e que a separação de Taiwan não tem de incluir a proclamação de independência. Mas existem dúvidas sobre a paciência de Xi, e também se a sociedade taiwanesa aceita indefinidamente esta situação.

Crescentemente isolados do ponto de vista diplomático desde que em 1971 perderam o assento nas Nações Unidas, os governantes de Taipé enfrentam também uma situação internacional em que por razões políticas e económicas raros são os países dispostos a apoiar Taiwan, temendo retaliação chinesa.

Só os Estados Unidos, e em certa medida o Japão depois de declarações recentes da primeira-ministra Sanae Takaichi, surgem como eventuais garantias de defesa da ilha em caso de tentativa chinesa de reunificação pela força. Mas é um conflito que ninguém pode aceitar facilmente, nem os diretamente envolvidos, nem o resto do mundo, pois o impacto seria imenso, a começar pelo económico. Seria um conflito a envolver pelo menos a primeira e a segunda maiores economias mundiais. Destruição e caos certos.

Para a China, a reunificação pacífica, negociada, continua o melhor dos cenários. Mas antes disso, haverá que restabelecer um mínimo de confiança entre Pequim e Taipé, pelo menos para haver diálogo, como num passado não muito distante, quando era presidente Ma Ying-jeou, do Kuomintang, que conseguiu ligações aéreas diretas e como líder partidário também se reuniu com o comunista Xi. Para Taiwan, com a proclamação de independência afastada por pragmatismo até pelos independentistas, o status quo pode ser uma solução, mas não eternamente no atual quadro de forças a nível mundial.

Não existem, pois, soluções mágicas para um problema que nasceu em 1949, quando o mundo era bem diferente. Mas percebe-se que o caminho das relações entre os dois lados do estreito de Taiwan vai sempre ser condicionado pelo que China e Estados Unidos decidirem sobre a sua própria relação, se será de competição absoluta, como aconteceu na Guerra Fria entre americanos e soviéticos, ou se será um misto de competição e cooperação.

Do encontro amanhã entre Xi e Donald Trump, em que muito estará na agenda (do Irão às tarifas e da IA aos minérios), sairão pistas sobre o futuro de Taiwan, ilha a que os navegadores portugueses chamaram Formosa e que com 24 milhões de habitantes e um terço do tamanho de Portugal tem um protagonismo admirável.

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