O povo que o Chega escolhe

Salvador Varges

Estudante e politólogo

Publicado a

"Nascemos da raiva do povo." O chavão é do Chega, repetido em comícios com a convicção de quem acredita que a política pode ser feita por gente comum, fora das elites que há décadas dominam os corredores da Assembleia da República. É um argumento sedutor, embora,à luz dos dados, empiricamente falso!

Um estudo realizado sobre os candidatos do Chega nas eleições legislativas, com base no Inquérito aos Candidatos a Deputados do Observatório da Democracia do ISCTE, revela um perfil que pouco tem de "povo". Mais de 70% dos inquiridos tem formação superior, quase metade possui uma pós-graduação ou mestrado, o que se mostra, no mínimo, preocupante, tendo em conta a retórica que têm vindo a seguir. A média de idades ronda os 49 anos, o tipo de perfil que encontramos nos partidos que o Chega diz querer substituir. Não são políticos de carreira, tendo pouca experiência institucional prévia, não passaram pelo aparelho partidário tradicional, não fizeram carreira em órgãos autárquicos. São outsiders, mas não são o cidadão anónimo que enfrenta o custo de vida no fim do mês, as condições dos transportes ou o mercado da habitação instável.

Quando questionados sobre quem tomou a decisão final na sua candidatura, 85,7% dos inquiridos apontou a liderança nacional. Não as bases, nem os militantes, nem as estruturas locais, é a liderança. O Chega, que se apresenta como antídoto à partidocracia, pratica o modelo de recrutamento mais centralizado do sistema partidário português.

Esta não é uma crítica moral ao partido, é uma constatação sobre a lógica estrutural do populismo. Os movimentos que constroem a sua identidade em torno da oposição entre "o povo puro" e "a elite corrupta" enfrentam sempre um problema prático: precisam de candidatos competentes para governar, e candidatos competentes raramente são aqueles que o discurso prometeu. A contra-elite que emerge não é o povo, é uma nova elite técnica, selecionada de cima para baixo, que usa a retórica do povo para chegar ao poder.

Há algo de revelador noutro dado do mesmo estudo: 66,7% dos candidatos com mestrado ou pós-graduação declara desconfiar do sistema eleitoral. Pessoas altamente qualificadas, que poderiam integrar qualquer organização política convencional, escolheram um partido cujo apelo central é a desconfiança nas instituições. O ressentimento, aqui, não é da falta, é do excesso de qualificação num sistema que sentem não os recompensar.

A "voz do povo" é construída por um aparelho que o povo não controla. A renovação prometida tem o rosto de quem já sabe o que é uma tese de mestrado. E a raiva que "nasceu do povo" foi canalizada, selecionada e disciplinada por uma liderança que decide, sozinha. Isso não invalida as preocupações de quem vota no Chega, invalida a narrativa de que este partido é diferente na sua forma de se constituir. Não estamos claramente a ver um partido que opera, fala e age de maneira diferente dos “partidos do sistema”, estamos a ver uma mudança na elite.

Diário de Notícias
www.dn.pt