Carlos Moedas pode continuar sem deixar obra que marque a memória dos lisboetas, mas há um mérito que ninguém lhe tira: a capacidade de construir, repetidamente, uma narrativa em que a crítica, a exigência e a responsabilidade raramente lhe tocam.Moedas, pela falta de escrutínio, é o político a quem tudo parece ser permitido. Surfando a onda do populismo, sustenta o seu discurso numa rejeição implícita dos partidos, procurando colocar-se acima deles como uma figura independente e agregadora. Algo que não é original: também Cavaco Silva tentou cultivar essa imagem de suprapartidarismo, que rapidamente colidiu com uma realidade que revelou o contrário, já que sempre atuou como referência de um bloco partidário.Moedas segue o mesmo guião, mas sem peso institucional, sem obra feita e com uma dependência obsessiva da construção mediática da sua imagem.Enquanto proclama uma distância das lógicas partidárias, Moedas participa ativamente nas dinâmicas internas do seu espaço político. Move-se permanentemente nas disputas de poder, ora para não ser ultrapassado por Passos Coelho, ora para se posicionar face à liderança de Montenegro, ora ainda na tentativa de influenciar o PSD Lisboa. A incoerência entre discurso e prática é evidente. Nada disto seria particularmente relevante se não existisse um detalhe incontornável e preocupante: Lisboa precisa de um presidente mais preocupado com os problemas da cidade do que com as visualizações no TikTok.Passemos aos factos. Os alegados 17 mil empregos associados à chamada fábrica de unicórnios continuam sem identificação clara. Moedas evita, reiteradamente, esclarecer quem são estas 17 mil pessoas que teriam sido empregadas graças aos seus unicórnios.A nomeação de Mafalda Livermore, do Chega, para os Serviços Sociais da CML levanta sérias dúvidas sobre uma eventual lógica de troca de favores para viabilizar decisões políticas. Acresce a existência de um entendimento com o Chega que foi ocultado aos lisboetas, comprometendo a transparência democrática. Mais uma vez, a Moedas tudo se permite.Em paralelo, verifica-se uma apropriação sistemática de obra que não lhe pertence. Creches, centros de saúde, escolas, habitação, jardins e grandes intervenções urbanas surgem recorrentemente apresentados como conquistas próprias, mesmo quando resultam de planeamento e investimento anteriores. O Plano Geral de Drenagem é talvez o exemplo mais evidente deste revisionismo político. Escrutínio? Inexistente ou pífio.A encenação atinge o seu auge em momentos como a entrega das chaves das casas da Gebalis, transformadas em verdadeiros eventos de promoção pessoal. A comunicação substitui a verdade e a factualidade, enquanto os meios municipais são mobilizados para reforçar uma imagem cuidadosamente construída.No fundo, vigora uma lógica simples: as boas notícias são sempre apropriadas, enquanto as más são sistematicamente atribuídas a terceiros. Este padrão não é apenas um traço de estilo político, mas um problema sério de responsabilidade pública.Lisboa merece mais do que isto. Merece escrutínio, coerência e verdade.