Lisboa não precisa de cenários “instagramáveis” pagos com dinheiro público. Precisa de políticas consistentes, transparentes e justas - que apoiem o movimento associativo, as coletividades e programas essenciais para os bairros, como o BIP/ZIP.A decisão do Executivo liderado por Carlos Moedas de isentar de taxas e financiar o evento Chic Nic com 75 mil euros não é apenas muito discutível - revela uma visão de cidade que privilegia uma certa aparência “chic” em detrimento das necessidades reais. Num contexto em que o custo de vida aumenta diariamente, um punhado de privilegiados levou cestas de 300 euros para o Parque Eduardo VII num evento comercial financiado com dinheiro público. Quando se abdica de receitas municipais e se canalizam recursos públicos para um evento desse tipo, a pergunta impõe-se: quem beneficiou, que contrapartidas para a cidade?Não foram, decerto, as associações de bairro, os projetos comunitários ou os agentes culturais que lutam todos os dias para manterem atividades com impacto social. Esses continuam a enfrentar candidaturas complexas, atrasos e apoios insuficientes. O contraste é evidente. Para uns há financiamentos fáceis, para outros só atrasos e exigências.Lisboa enfrenta desafios sérios: dificuldades no acesso à habitação, pressão sobre serviços públicos, falta de financiamento nas cantinas escolares, falta de auxiliares nas escolas e fragilidades nas respostas sociais. No caso do programa BIP/ZIP, da responsabilidade da autarquia, projetos aprovados para 2025 receberam apenas 15% do financiamento previsto. Os atrasos colocam em risco iniciativas em áreas críticas como educação, envelhecimento e saúde mental. Há igualmente associações a endividarem-se para pagar salários e para conseguirem manter respostas a pessoas em situação de sem-abrigo ou vítimas de violência doméstica, devido a incumprimentos da Câmara Municipal de Lisboa. O futuro do próprio programa BIP/ZIP - em vigor desde 2010 e considerado internacionalmente um exemplo de participação - é, neste momento, incerto.Perante este cenário, a escolha de canalizar recursos públicos para eventos com forte componente comercial e destinados a uma elite é vincadamente simbólico. Indica um rumo político da cidade virado para o privilégio dos que só entendem a cidade como espaço de negócio, de especulação e de segregação social, em que os interesses do mercado constituem a orientação essencial. Moedas, agora com o apoio da extrema-direita que lhe deu a maioria, está a cumprir o seu programa.Lisboa merece mais do que políticas para o 1% de privilegiados, enquanto os 99% enfrentam dificuldades e lutam por uma vida mais justa. Merece políticas que promovam a igualdade e coloquem os cidadãos no centro das decisões - não apenas como figurantes de uma fotografia bem composta, mas como protagonistas de uma cidade mais justa.