O Burquina não sai da anedota, nem entra na democracia!

Raúl M. Braga Pires

Politólogo arabista. Professor no Instituto Piaget de Almada

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O desconhecido Burquina Faso, que ninguém sabe, chamar-se “Terra dos Homens Honestos”, na tradução literal da combinação das línguas Mossi e Diúla. “Alquimias do Nation Building” de Thomas Sankara, O Presidente, de 1983 a 1987.

Todo este desconhecido exótico, faz geralmente o professor brincar com o erro do aluno, respondendo, “talvez no Burquina Faso, nunca em África”!

O Burquina, situado na hinterlândia saeliana, não teve escolha em alinhar na vaga anti-francesa, que os russos levantaram, a partir de 2020, com o golpe militar no Mali, seguindo-se o Burquina em 2022, com dois golpes, e em 2023, o Níger, numa continuidade fronteiriça equivalente a uma linha de dominós em pé, e prontos a caírem uns sobre os outros. Foi esse o efeito, com o Burquina no meio. Apesar disso, nunca se viu virtude neste reviralho, que expulsou franceses desta África Ocidental, criou rupturas e vazios, ainda em crescendo!

De tal forma, que o actual líder da Junta Militar em exercício, o capitão Ibrahim Traoré, veio quinta-feira, numa entrevista/comunicado na televisão nacional dizer: “Olhem para a Líbia e olhem para nós. Esqueçam a democracia, a democracia mata! Vejam o que potências exteriores fizeram à Líbia, na tentativa da imposição da democracia. A democracia, não é para nós.” Disse o líder!

Há 3 meses, o mesmo Traoré extinguira os partidos políticos do país, um primeiro passo para um caminho que seria óbvio e se materializou a 2 de abril, com este comunicado. O que é que está em jogo?

A Argélia, está, uma vez mais, na encruzilhada do destino. A cumprir um segundo mandato, com 80 anos, o presidente Tebboune, não exercerá um terceiro, sendo a principal preocupação dos argelinos o legado e a mudança geracional, ainda por fazer.

Por outro lado, a Argélia lança-se de cabeça na construção do gasoduto que ligará a central distribuidora argelina à fonte, na Nigéria. Projecto de 4500 km, terá de passar pelo Níger, com quem a Argélia não está bem. Não faz sentido pensar que o referido projecto passe a passar pelo Burquina para evitar o Níger. A geografia diz que não!

No entanto, o regresso da Argélia à cena africana e internacional, pela importância que “os gases” foram ganhando ultimamente, mais o cenário de decadência da CEDEAO e a novidade da Aliança dos Estados do Sahel (AES-Mali, Burquina e Níger), é possível que este momento de transição geracional argelina aponte para um pragmático: “Aderimos nós à AES, a forma mais inteligente, e até sedutora, de regressarmos ao Sahel e voltarmos a contar como antigamente.”

O que é que isto tem a ver com o Burquina “deslargar” a democracia? Facilita!

Escreve de acordo com a antiga ortografia

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