Numa França a arder, quem herda a República?

Helena Tecedeiro

Editora-executiva do Diário de Notícias

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Uma semana depois de um sábado de protestos que terminou em violência, com carros e edifícios incendiados, lojas pilhadas, confrontos com a polícia e 2400 pessoas detidas, França prepara-se para nova jornada de contestação amanhã. Um Ato II, no qual as autoridades querem evitar a repetição das falhas de segurança. Para isso, e após uma semana em que o recolher obrigatório decretado em várias cidades, inclusive alguns bairros de Paris, conseguiu manter a calma, o governo de Sébastien Lecornu destacou um dispositivo policial “massivo”, apoiado pelos militares.

A pouco mais de seis meses das presidenciais, o descontentamento que levou primeiro os jovens para a rua para protestar contra a falta de condições na Educação, mas que depressa alastrou a outros setores, transformando-se num movimento contra o aumento do custo de vida, tornou-se arma de arremesso político.

Em final de mandato, Emmanuel Macron assiste à erosão do velho modelo político a que ele próprio ajudou a pôr fim. Ao vencer as presidenciais de 2017, depois de sair do governo do socialista François Hollande e de criar o seu próprio partido centrista, o homem que chegou a ser apelidado de “Júpiter”, pelos seus sonhos de grandeza política, ditou, de certa forma, o fim dos partidos tradicionais.

Passada quase uma década, a luta pela sua sucessão faz-se hoje sobretudo entre a extrema-direita de Marine Le Pen e a extrema-esquerda de Jean-Luc Mélenchon. E cada um deles tem procurado capitalizar com o descontentamento de uma sociedade francesa cada vez mais descrente nas suas instituições.

A candidata do Reagrupamento Nacional, que tenta pela quarta vez chegar ao Eliseu, criticou fortemente o governo que considerou “esgotado, exausto e desorientado” e acusou Macron de não ter credibilidade, nem autoridade para controlar a situação. Enquanto apelava à calma e prometia mais medidas de segurança se for eleita, Le Pen acusou a França Insubmissa, de Mélenchon, de incentivar a violência, chamando “incendiários sociais” aos seus dirigentes, que acusou de instrumentalizar a revolta popular.

Também na quarta candidatura presidencial, Mélenchon negou que o seu partido tenha incentivado os confrontos e criticou a atuação policial. Mas se condenou o incêndio de edifícios públicos, como a Câmara de Limoges, que ficou totalmente destruída, e defendeu a não-violência, o líder dos Insubmissos não chegou a condenar explicitamente os atos de violência dos manifestantes.

Com a última sondagem, realizada já depois de sábado, a mostrar Le Pen constante como favorita e Mélenchon com boas possibilidades de passar à segunda volta (lugar que disputa com o ex-primeiro-ministro Édouard Philippe e o eurodeputado Raphaël Glucksmann) , o futuro presidente francês arrisca ser uma figura, no mínimo, divisiva, num país já de si profundamente dividido. Portanto quando forem às urnas em abril, mais do que o sucessor de Macron, os franceses vão estar a escolher o rumo futuro da República.

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