Num mundo em fragmentação, o que distingue as democracias?

Bernardo Ivo Cruz

Professor convidado UCP/UNL/UÉ

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As ameaças recentes de Donald Trump de “destruir a civilização iraniana” não são apenas mais um episódio de retórica inflamada do presidente dos Estados Unidos. São um sinal. E, como todos os sinais relevantes, dizem-nos menos sobre o imediato e mais sobre a transformação estrutural em curso.

Durante décadas, as democracias liberais construíram a sua legitimidade externa em torno de três pilares: a previsibilidade, o respeito por normas internacionais e a contenção no uso da força. Mesmo quando falhavam, havia uma arquitetura discursiva e institucional que procurava enquadrar a ação dentro de limites reconhecíveis. O que estas declarações revelam é uma erosão desse quadro.

Não estamos apenas perante uma divergência de política externa. Estamos perante uma alteração do próprio referencial normativo e do espaço público e político ocupado pelas democracias.

Quando um líder democrático sugere a destruição de uma civilização, mesmo que em contexto de conflito, está a deslocar o debate de uma lógica de contenção para uma lógica de aniquilação. E isso tem consequências profundas.

Primeiro, a credibilidade. As democracias sempre reivindicaram uma superioridade moral face a regimes autoritários, baseada não na ausência de poder, mas na forma como esse poder é exercido. Quando essa distinção se dilui, perde-se um dos principais ativos estratégicos do mundo democrático: a confiança.

Segundo, a estabilidade internacional. O sistema internacional já vive sob pressão de múltiplas tensões geopolíticas, tecnológicas e energéticas. A introdução de uma retórica existencial agrava o risco de escalada, porque reduz o espaço para compromisso e aumenta a perceção de ameaça absoluta do outro lado.

Terceiro, a saúde interna das próprias democracias. A forma como os líderes falam para fora tem impacto direto na forma como governam por dentro. A normalização de linguagem extrema contribui para a polarização, para a simplificação do debate e para a erosão da legitimidade percebida.

Mas há ainda um ponto mais estrutural. Estas declarações surgem num momento em que as democracias enfrentam uma competição aberta com alternativas autoritárias que se apresentam como mais eficazes, mais estáveis e menos condicionadas por constrangimentos normativos. Ao abdicar da sua própria gramática política, as democracias não se tornam mais fortes. Tornam-se mais semelhantes aos modelos que dizem querer conter. E isso é estrategicamente contraproducente.

A questão central não é, portanto, somente o Irão. É o papel das democracias num mundo em fragmentação.

Se a resposta à instabilidade for a adoção de uma lógica de força sem limites, então as democracias deixam de oferecer uma alternativa. Passam a ser apenas mais um ator num sistema onde o poder se exerce sem mediação normativa.

Se, pelo contrário, forem capazes de reafirmar os seus princípios, precisamente em contextos de tensão, mantêm a sua relevância não apenas como sistemas políticos internos, mas como referência internacional.

A História mostra que as democracias não são testadas nos momentos de conforto. São testadas quando enfrentam ameaças reais. E é nesses momentos que se decide se continuam a ser diferentes ou apenas mais fortes.

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