Em janeiro, um grupo de extrema-esquerda atacou o sistema eléctrico alemão e Berlim sofreu o maior apagão desde a II Guerra Mundial. 45.000 famílias ficaram sem energia num mês com temperaturas negativas.Este acto de sabotagem, com uma sofisticação operacional sem paralelo nas últimas décadas, levou as autoridades alemãs a alocar mais recursos ao combate à extrema-esquerda.Em Itália também despontam episódios preocupantes. Há pouco mais de uma semana dois jovens anarquistas foram encontrados mortos nos escombros de uma casa abandonada, em Roma. O artefacto explosivo que fabricavam detonou de forma involuntária.A bomba destinar-se-ia aos caminhos-de-ferro. De acordo com o Ministério do Interior italiano, os ataques a este tipo de infraestrutura aumentaram 450% entre 2024 e 2025.Em Portugal, onde a extrema-esquerda é tratada como uma fantasia inventada por gente mal-intencionada, um indivíduo com motivações anarquistas lançou um engenho incendiário contra uma marcha anti-aborto, em Lisboa. Só a inépcia do atacante impediu uma tragédia.Pese embora o crescimento de extrema-direita na Europa, os números mostram maior incidência de violência do campo político contrário. Em 2024, a Europol identificou 58 actos de terrorismo, dos quais 24 foram de índole jihadista, 21 de extrema-esquerda e anarquista, 4 separatistas e apenas 1 de extrema-direita - acrescem 8 incidentes sem motivação estabelecida.Os anos mais recentes mostram distribuições e ordens de grandeza em tudo semelhantes. Por exemplo, em 2023, também segundo a Europol, em 120 incidentes terroristas, a extrema-esquerda foi responsável por 32, o que compara com 2 da extrema-direita.Isto leva-nos a um passado que julgávamos arquivado, o da terceira vaga de terrorismo internacional, compreendida entre as décadas de 1960 e 1980. A imensa maioria das organizações activas neste período subscreviam agendas de extrema-esquerda e eram, no essencial, movimentos extraparlamentares, com pouca ou nenhuma representação em instituições democráticas. Não conseguiam eleger candidatos em eleições livres e plurais, ou simplesmente rejeitavam a democracia e os seus procedimentos.Não foi por acaso que o pico de terrorismo em Espanha ocorreu na década de 1980, etapa em que sistema partidário se consolidou ao centro, com os eleitores a remeterem os extremismos para as margens da arena política. A erupção em força das FP-25 em Portugal obedeceu a dinâmica semelhante, sobretudo após a derrota de Otelo Saraiva de Carvalho nas presidenciais de 1980.O terrorismo não se presta a causalidades simples. E estamos longe da espiral de violência que assolou o continente europeu há meio século. Ainda assim, no momento presente, o passado parece repetir-se. Há certa correlação entre a viragem da Europa à direita em eleições e o crescimento dos incidentes terroristas de esquerda e anarquistas.Nos Estados Unidos da América, onde a violência de extrema-direita tem sido dominante, estudos recentes sugerem alguma correlação entre a vitória de Trump e o crescimento de episódios violentos com motivações de esquerda.Aparece, portanto, uma hipótese: à semelhança do sucedido há 50 anos, as esquerdas extremas, confrontadas com fracassos eleitorais e com a ascensão de partidos que consideram ilegítimos, veem no contexto político um incentivo à violência. Até porque a polarização política é uma das consequências mais imediatas de um acto terrorista.O certo é que hoje, como no passado, estas esquerdas actuam em nome do povo enquanto ignoram a vontade por ele expressa nas urnas. Certo é também que as evidências são suficientes para que, por fim, se dê atenção ao assunto. Não são percepções. Escreve sem aplicação do novo Acordo Ortográfico.