Menores recrutados pelo crime

Ana Miguel Pedro

Eurodeputada do CDS, membro da comissão Justiça e Assuntos Internos

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O recrutamento de menores por redes criminosas é uma das ameaças mais preocupantes à segurança interna europeia. O fenómeno já não se limita aos bairros, às ruas ou aos contactos presenciais. Hoje, muitas redes criminosas chegam aos adolescentes através das redes sociais, de aplicações de mensagens, de fóruns digitais, de jogos online e de canais encriptados. A criminalidade organizada percebeu que os jovens são mais vulneráveis, mais fáceis de manipular e, muitas vezes, menos visíveis para as autoridades.

Num relatório de 2024, a Europol alertava que o recrutamento de menores para o crime organizado e para o terrorismo não é novo, mas que se tornou uma prática cada vez mais usada para evitar detecção. Está presente em mais de 70% dos mercados criminais analisados, incluindo tráfico de droga, violência associada à droga, fraude online, cibercrime, tráfico de migrantes e crimes contra a propriedade.

No tráfico de droga, o fenómeno é particularmente relevante. Jovens entre os 13 e os 17 anos são usados como vendedores de rua, correios, operadores de armazéns, extractores de droga em contentores marítimos e participantes em acções de rip-off, isto é, na retirada de droga de canais de distribuição criminal. Em alguns países, esta última função, antes rara ou quase inexistente entre menores, já representa perto de 10% dos casos.

O terrorismo e a radicalização online tornam esta ameaça ainda mais grave. Em 2025, a Europol coordenou uma operação contra conteúdos terroristas online dirigidos a menores, na qual foram sinalizadas mais de 2000 ligações para propaganda jihadista. Isto revela que o problema não se limita à droga: há uma disputa activa pela atenção, pela fragilidade emocional e pela necessidade de pertença dos jovens.

Em Portugal, a PSP deixou um alerta relevante. A preocupação com uma eventual migração de jovens para a dark web caso as restrições às redes sociais sejam aplicadas sem uma estratégia mais ampla.

É por isso que a discussão sobre limitar o acesso de menores às redes sociais deve ser feita com prudência. Se os menores forem simplesmente expulsos das plataformas mais visíveis, podem deslocar-se para espaços digitais mais fechados, encriptados ou difíceis de monitorizar. A dark web não é um território completamente inacessível às autoridades, mas é um espaço onde a investigação tende a ser mais complexa, mais lenta e menos visível para pais, escolas e forças de segurança.

O recrutamento de menores por redes criminosas mostra que a criminalidade organizada aprendeu a usar a linguagem da internet, dos jogos e das redes sociais. Por isso, a resposta também tem de ser moderna.

Proteger menores no mundo digital não significa apenas bloquear acessos. Significa acompanhá-los, educá-los, responsabilizar plataformas e garantir que a lei chega também aos espaços onde os criminosos tentam esconder-se.

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