Mali, a oportunidade argelina!

Raúl M. Braga Pires

Politólogo arabista. Professor no Instituto Piaget de Almada

Publicado a

A evolução da sublevação tuarego-islamista, uma categoria nova, no Mali, há uma semana, dá sinais de se tratar do momento certo, para um regresso da influência e savoir faire, da Argélia, no que sempre foram “as traseiras do hexágono”, o Sahel Ocidental.

O Mali, encontra-se em partição efectiva, com um Azawad livre das FAMa (Forças Armadas do Mali) e do Africa Corps, o grupo expedicionário russo. Ambos abandonaram Kidal, cuja rendição umas fontes confirmam ter sido negociada com os jihadistas do JNIM-AQMI, a Al-Qaeda do Magrebe Islâmico, e outras garantem que tudo foi mediado pelos serviços argelinos. Naturalmente, com uma raia tão extensa com o Norte, da província maliana agora à solta, e toda a tecnologia associada, será inocente achar que a Argélia alguma vez negligenciou esta fronteira!

A capital, Bamako, encontra-se cercada, pela Al-Qaeda, que anunciou, em bambara, a língua franca do Sul e da capital, que a mesma se encontra cercada, que vão ter de aguentar e contar, também, com ataques a Kati, onde se encontra a Academia Militar e a cama do presidente (PR), Assimi Goita!

Neste cenário, Bamako precisa da ajuda de Argel, um parceiro tradicional, cuja deterioração da saúde/Presidência, do PR Bouteflika, acompanhou um desfocar da prioridade Sul, por todos, polícias, serviços, militares e governo. Desde 2019, o PR Tebboune teve de organizar o pós-General Taoufiq, no fundo, virar a página de um “antigo regime”, sendo Tebboune da mesma criação! E, entretanto, de 2019 até hoje, “já passou tanta água”, que o mundo terá de ser cada vez mais dos inteligentes, face à brutalidade existente! E o que será inteligente a Argélia fazer, perante o actual “aquário saheliano”?

Primeiro, ter uma política fronteiriça de integração. Acudir às necessidades imediatas das populações. Os raianos malianos deverão poder aceder facilmente aos dispensários argelinos, para consultas, vacinas e aspirinas.

Segundo, e para tal acontecer, os raianos poderão ser portadores de um Cartão de Cidadão da Raia, que lhes permita passagem imediata na fronteira.

Terceiro, este alastrar a partir da fronteira terrestre, ganhando os corações dos que mais precisam, será fundamental mobilizar a máquina económica, com a banca na vanguarda, logo seguida pelas telecomunicações e pelas construtoras.

Quarto, e caso isto esteja na agenda “a fazer, do PR Tebboune”, certamente terá na manga, para breve, mover o Bispo para Sul e pedir adesão à Aliança dos Estados do Sahel, passando a liderá-la. Por que é que este move é imperativo para a Argélia?

Porque o seu gasoduto, no sentido Nigéria, passa pelo Níger e porque ter um Mali estável, é ter um Sahel estável.

Escreve de acordo com a antiga ortografia

Diário de Notícias
www.dn.pt