Mais de três mil milhões. Este é o número de vezes que o coração de um português bate ao longo da vida, assumindo uma esperança média de 81 anos. Sem parar. Quando damos os primeiros passos, na escola, nas quedas de bicicleta, nas férias da adolescência, no primeiro beijo, no parto dos filhos, na morte de entes queridos. Na terra, mar e ar; a caminhar, a nadar ou a saltar de paraquedas, a 200km por hora em direção à Terra. Deitados, em pé ou de cabeça para baixo.Sou cardiologista de intervenção. Esta subespecialidade trata as doenças do coração por meios menos invasivos, através da introdução de pequenas sondas (cateteres) pelas veias e artérias, geralmente pela virilha ou pulso. Não somos cirurgiões, não “cortamos”.A maior parte da nossa atividade consiste em coronariografias, os cateterismos. Sob anestesia local, conduzimos os cateteres até ao coração e injetamos um contraste nas coronárias, as artérias que o irrigam. Isso permite-nos ver se existe alguma obstrução. Em 1977, um cardiologista alemão desobstruiu pela primeira vez uma destas artérias. Nascia assim esta área: o cardiologista não só via o que estava errado, mas também tratava, intervencionava.A desobstrução é efetuada com recurso a balões e à implantação de stents, pequenas malhas metálicas. Dispomos de uma panóplia de técnicas associadas, desde pequenas câmaras intracoronárias até brocas que giram a 160.000 rotações por minuto para pulverizar o cálcio. Os cateterismos podem ser eletivos, isto é, planeados, ou emergentes, quando são realizados durante um enfarte agudo do miocárdio – o vulgar “ataque cardíaco” – para abrir a artéria ocluída. O tempo, neste caso, é crucial: quanto mais rapidamente se abrir a artéria, menos células morrem, porque as células do miocárdio não se multiplicam. O número é fixo desde a nascença, daí o mantra: “tempo é músculo”.Há cerca de 25 a 30 anos desenvolveu-se uma segunda área na cardiologia de intervenção: a estrutural. Esta expressão refere-se a doenças das válvulas cardíacas, das paredes do coração, das cavidades ou do próprio músculo cardíaco – o miocárdio. Este tipo de patologia pode ser congénita ou desenvolver-se com a idade, e o seu risco aumenta significativamente ao longo da vida, afetando mais de 10% das pessoas com mais de 75 anos. Por exemplo, alguns de nós temos uns orifícios nas paredes do coração ou umas reentrâncias que são propícias à passagem ou formação de coágulos. Através de um acesso pela perna podemos implantar umas “tampinhas” que encerram esses locais, anulando ou diminuindo a probabilidade de sofrermos um acidente vascular cerebral (AVC). As doenças valvulares – como a estenose, quando a válvula fica apertada, ou a regurgitação, quando deixa de vedar e o sangue reflui – são as patologias estruturais mais comuns.Perguntei recentemente à Inteligência Artificial “qual o procedimento mais disruptivo na cardiologia dos últimos 20 anos?”. A resposta foi: “Se tivéssemos de eleger um vencedor incontestável pela mudança de paradigma, impacto na sobrevivência e audácia técnica, esse seria a TAVI ou implante de válvula aórtica transcateter”. Tenho a felicidade de ser um dos cardiologistas que iniciaram esta técnica em Portugal, entre 2007 e 2008. A idade média dos doentes nacionais submetidos a este procedimento é de cerca de 82 anos.Substituímos válvulas cardíacas com o doente frequentemente acordado e com alta pelo próprio pé, ao fim de um a três dias. Como qualquer procedimento invasivo, tem riscos, mas são muito menores do que os da cirurgia clássica de peito aberto. E nunca paramos o coração. É como arranjar os motores de um avião em pleno voo. Com mais de 1000 intervenções valvulares realizadas – aórticas, mitrais e tricúspides – ainda fico inspirado por estas técnicas.No mês de abril efetuei uma TAVI a dois pacientes que me viram nascer, um com 99 e outro com 101 anos, ambos autónomos. Nessa idade, os seus corações já terão batido cerca de 4,5 mil milhões de vezes. Espero ter-lhes assegurado uns bons milhões adicionais.