Já passei muito 'kokushobi' no Alentejo

Helena Tecedeiro

Editora-executiva do Diário de Notícias

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Sabe aqueles dias em que está tanto calor que não consegue imaginar fazer mais nada além de estar na praia, de preferência com os pés dentro de água para refrescar? Aqueles dias em que o nosso querido Eça de Queiroz diria estar “um calor de ananases”? Os japoneses arranjaram um nome para se referir a esses dias: kokushobi.

A palavra, apresentada há dias pela Agência Meteorológica do Japão, significa “dia de calor insuportável”, “dia de calor brutal” ou “dia de calor extremo”. Foi a vencedora de uma sondagem online realizada a nível nacional e refere-se, especificamente, a dias em que as temperaturas ultrapassem os 40ºC. A ideia de fazer uma sondagem surgiu depois de o Japão ter registado em 2025 o verão mais quente desde que há registos.

Quem participou no inquérito podia escolher entre 13 opções para descrever os dias mais quentes. Realizado entre fevereiro e março, este recebeu mais de 478 mil respostas. Ideia inovadora? Nem tanto, afinal o Japão é conhecido por gostar de “inventar” palavras. Um outro exemplo? Tsundoku, ou seja, a arte de empilhar no chão livros por ler. E em relação ao calor, já tinham palavras específicas para dias com temperaturas superiores a 25°C, 30°C e 35°C.

Por cá, se ainda não inventámos uma palavra para os designar também nós nos habituámos a verões cada vez mais quentes. E, como alentejana - mesmo da “espécie” que cresceu na Suíça e gosta bastante mais de neve do que de calor -, já enfrentei muitos dias com os termómetros acima dos 40ºC. E ainda não esqueci aquele verão de 2003 em que a Amareleja chegou aos 47,3ºC, ainda hoje o recorde de temperatura em Portugal.

No Alentejo, antigamente, quando o mercúrio subia e nem bolia uma aragem, os mais antigos escondiam-se atrás das paredes grossas das casas, caiadas de branco para afugentar o calor, e só voltavam a sair ao final da tarde para se sentar às portas e queixar-se da “calmaça” que esteve. Se não é inventada como as dos japoneses, esta palavra também não vem no dicionário, sendo uma espécie de equivalente local a “caloraça” mas com “calma”, como os alentejanos gostam de chamar ao calor. Hoje, infelizmente, as paredes das casas já não são tão grossas e se o branco ainda domina no Alentejo, os ares condicionados continuam a ser exceção nas casas de habitação.

Ora são cada vez mais estes dias de calor extremo, no Japão, em Portugal e um pouco por todo o mundo, reflexo dessas alterações climáticas que alguns insistem em negar e outros pretendem combater lançando tinta sobre obras de arte. Mas contra as quais há muito devíamos ter começado a agir para evitar ondas de calor ou tempestades destruidoras, como as do último inverno em Portugal.

Afinal, mesmo quem gosta do verão, dispensa com certeza muitos dias de caloraça... ou de kokushobi.

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