A regularização extraordinária de centenas de milhares de imigrantes pelo Governo espanhol é apresentada por Pedro Sánchez como um gesto de justiça, humanidade e pragmatismo económico. Mas esta narrativa, aparentemente generosa, omite um ponto, talvez o fundamental: Espanha não é uma ilha administrativa. Espanha pertence ao espaço Schengen. E, em Schengen, a decisão migratória de um Estado-membro nunca termina nas suas próprias fronteiras.Segundo a análise de risco do Centro Nacional de Inmigración y Fronteras da Polícia Nacional, ter-se-á estimado que a regularização poderia beneficiar inicialmente entre um milhão e 1,35 milhões de pessoas, acima da estimativa política de cerca de 500.000. O mesmo relatório anteciparia ainda movimentos secundários de 200.000 a 250.000 imigrantes irregulares por ano de outros países do espaço Schengen para Espanha.É este o ponto que torna esta regularização particularmente grave. Estamos perante uma decisão com impacto europeu, tomada num momento em que a União tenta reconstruir alguma credibilidade na gestão das suas fronteiras externas, no controlo dos fluxos irregulares e na aplicação do novo Pacto Europeu sobre Migração e Asilo. A Comissão Europeia tem insistido na necessidade de rastrear chegadas irregulares, reforçar procedimentos nas fronteiras externas e aplicar regras comuns a partir de junho de 2026. Que autoridade moral tem a Europa para exigir controlo comum das fronteiras externas quando um Estado-membro decide, unilateralmente, transformar a irregularidade em residência legal numa escala de meio milhão de pessoas?Não há verdadeira integração quando a porta de entrada é a ilegalidade. Não há integração quando o primeiro contacto com a Europa é mediado por redes criminosas. Não há integração quando o Estado chega tarde, fecha os olhos durante anos e depois chama “regularização” àquilo que, na prática, é a legalização retroactiva da sua própria incapacidade.A Europa precisa de imigração. Mas precisa de imigração legal, controlada, integrada e compatível com a capacidade das sociedades de acolhimento. Por isso, criticar a regularização massiva espanhola não é atacar a imigração. É defender uma imigração com regras, critérios, deveres, controlo e integração real. O que Espanha está a fazer corre o risco de enviar a mensagem oposta: entrar ou permanecer irregularmente pode ser uma aposta racional, desde que se espere pela próxima decisão política.E essa mensagem, num espaço sem fronteiras internas, não fica em Espanha. Circula. Como tudo em Schengen. E perdem os cidadãos, perdem os imigrantes legais e perdem todos os que ainda acreditam que a imigração deve ser humana precisamente porque é ordenada.