Elas mentem, eles não?

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O chamado “dossier Epstein” não é apenas a história de um predador sexual com ligações ao poder. É um teste contínuo àquilo que estamos dispostos a ignorar quando os nomes envolvidos são demasiado grandes para cair.

Jeffrey Epstein morreu numa cela. A rede de relações que o rodeava continua viva na memória pública, mas esvaziada de consequências proporcionais.

Fotografias, viagens, testemunhos, processos...

O príncipe Andrew resolveu um caso civil com um acordo milionário. Donald Trump surge associado em registos e relatos e enfrenta processos noutras matérias. Ainda assim, nada disto parece ter alterado estruturalmente o seu lugar na esfera pública. A proximidade ao poder funciona como blindagem. O escândalo transforma-se em ruído.

No centro desta história não está apenas um homem. Está um padrão. Quando mulheres denunciam, a primeira pergunta não é “o que aconteceu?”, mas “por que fala agora?”. Não é “quem abusou?”, mas “o que ganha ela com isto?”

A suspeita instala-se antes da escuta. A credibilidade entra no debate com um défice automático.

A ideia é antiga: as mulheres mentem, exageram, confundem-se e, cereja no topo de um bolo incompreensível, procuram visibilidade.

Cada detalhe é escrutinado à lupa, cada incoerência mínima converte-se em prova de falsidade.

Aos homens raramente se exige a mesma pureza retroativa porque a sua biografia pesa mais do que o testemunho alheio.

E os media não são neutros neste processo. Oscilam entre a indignação momentânea e a curiosidade quase voyeurista. O foco desloca-se rapidamente para a estratégia política, para o impacto eleitoral, para o cálculo reputacional. As vítimas tornam-se enquadramento. O poder permanece protagonista.

Há ainda um elemento mais incómodo: a fadiga coletiva. Mais um caso, mais um nome, mais uma manchete. O ciclo noticioso oferece-nos uma saída confortável, a da saturação. Quando tudo é escândalo, nada é estrutural; quando tudo é repetido, nada exige mudança.

O “dossier Epstein” expõe crimes, mas expõe também a facilidade com que a sociedade hierarquiza credibilidades. A palavra feminina continua a entrar no espaço público sob condição: provar duas vezes, explicar três, resistir quatro. A palavra masculina, sobretudo quando acompanhada de estatuto, entra com presunção de plausibilidade.

Talvez a pergunta nunca tenha sido se elas mentem. A pergunta é por que continuamos tão disponíveis para duvidar delas e tão relutantes em duvidar deles.

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