E se o exemplo para a paz na Terra vier do espaço?

Helena Tecedeiro

Editora-executiva do Diário de Notícias

Publicado a: 

De fato azul e com o cabelo a esvoaçar, Jessica Meir começa por dizer: “Gostaria de entregar ao Piotr a chave desta Estação Espacial Internacional [ISS].” Já com a grande chave dourada na mão, Piotr Dubrov, de fato branco, agradece à colega: “Obrigada, Jessica. Obrigada tripulação. É uma grande honra e uma grande responsabilidade ser o comandante de um sítio tão magnífico como a ISS.” E depois de lembrar que “este dia tem um significado especial para mim porque há 69 anos foi lançado o primeiro Sputnik”, acrescenta, sempre em inglês: “A ISS é o maior símbolo do que conseguimos fazer se trabalharmos juntos, o maior símbolo de cooperação internacional. E ser o comandante desta tripulação é o melhor cargo do mundo.”

Esta conversa passou-se esta semana, a bordo da ISS, a 400km da Terra, entre uma astronauta americana e um cosmonauta russo, dois profissionais separados por pouco mais do que a cor do fato de trabalho que envergavam. Um cenário que, na Terra, parece inimaginável - um americano entregar a um russo o comando de uma infraestrutura essencial - foi apenas um dia normal a bordo da ISS, onde, num espaço habitável equivalente a uma casa grande, convivem em permanência astronautas de vários países - EUA, Rússia, Japão, Canadá e várias nações europeias.

Com o primeiro módulo lançado em 1998 e presença humana contínua desde 2000, a ISS é um grande laboratório científico, na órbita baixa da Terra. Projeto de cooperação internacional envolvendo principalmente a americana NASA, a europeia ESA, a russa Roscosmos, a japonesa JAXA e a canadiana CSA, a estação desloca-se a uma velocidade de cerca de 28 mil km/h o que faz com que, por lá, se assista a 16 nasceres e 16 pores do Sol por dia.

Numa recente visita a Paris para a Cimeira Internacional sobre o Espaço, tive oportunidade de conversar com Thomas Pesquet, por duas vezes “residente” na ISS. Questionado sobre como se lida no espaço com tensões terrenas entre países, o astronauta francês garantiu que a técnica é evitar assuntos sensíveis - “ninguém vai falar de política ou religião”. E lembrava: “No final dos anos 2010 alguém sugeriu que a ISS devia receber o Nobel da Paz (...). O símbolo é muito forte porque, se observar, verá que são os países que se defrontaram na II Guerra Mundial que, passados 80 anos, estão a trabalhar juntos para fins pacíficos.”

Na altura fiz título com esta ideia de a ISS candidata ao Nobel da Paz, mas o assunto teria ficado por aí caso esta semana a Estação Espacial Internacional não tivesse surgido entre os favoritos ao galardão, cujo vencedor é anunciado esta sexta-feira, em Oslo.

Ora a ISS pode não ganhar - uma iniciativa civil no Sudão lidera as apostas -, mas uma coisa é certa, os líderes mundiais bem podiam olhar para o espaço quando tanto se fala em cooperação. Ou, como me confessava há uns anos outro astronauta, o alemão Matthias Maurer: “Adorava levar os políticos ao espaço. Depois disso iam ter políticas diferentes. O primeiro? O senhor que manda na Rússia.” E talvez mais uns quantos, para lhe fazer companhia.

Diário de Notícias
www.dn.pt