E que tal deixar o seu filho fazer as compras?

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Ter segurança nas ações que tomamos é fundamental para nos movermos de forma plena, diariamente, entre os vários planos da vida – familiar, social, profissional e financeira – sem estarmos subjugados a um medo constante de que o mundo se abata sobre nós a qualquer momento. Mas quando essa segurança assenta em falsas premissas, então, corremos o risco de deixar escancarada a porta por onde passam oportunistas ou, até, a sermos nós próprios a promover uma espécie de autossabotagem.

Isto vale para todo o tipo de situações, mas quando estão em causa as finanças pessoais os erros que possam ser cometidos, por vezes de forma displicente, têm consequências que podem tornar-se impossíveis de corrigir, com perdas imediatas, possivelmente irrecuperáveis e, no limite, em casos mais graves, dramáticas pela forma como impactam o nosso padrão de vida.

Vem isto a propósito de um estudo divulgado esta segunda-feira, dia 16 de março, pelo Banco de Portugal, apresentando um conjunto de dados (focado nos jovens de 15 anos) que devem merecer reflexão muito atenta tanto por parte das instituições financeiras, como por parte da comunidade escolar e encarregados de educação. O estudo, no qual participaram 4075 alunos portugueses, revela que 15% dos jovens de 15 anos não têm o mínimo de conhecimentos e competências básicas a nível financeiro e, mais preocupante, que entre estes menos preparados 74% dos inquiridos consideram-se capazes de gerir o seu dinheiro. O que, alerta o BdP, revela um “excesso de confiança que aumenta o risco de decisões financeiras pouco informadas”.

Uma das fontes do problema é o facto de, hoje, os mais jovens praticamente não lidarem com dinheiro físico, mesmo em ambiente escolar, onde as verbas que necessitem para pequenas compras estão depositadas em cartão. Depois, a iliteracia financeira começa nos próprios pais, também eles sem preparação para compreenderem os riscos associados a investimentos ou, até, conceitos básicos de poupança (o mesmo estudo do BdP mostra que só 13% dos entrevistados em Portugal atingem o nível essencial de conhecimentos financeiros).

A verdade é que aos 15 anos os alunos, nas salas de aula, já tiveram algum contacto com a importância da boa gestão do dinheiro, primeiro através da disciplina de Cidadania (que introduz a noção da poupança) e, depois, no 3.º ciclo, no âmbito disciplina de Educação Financeira, que já aborda temas um pouco mais complexos, como taxas de juro, seguros, orçamento familiar e outros.

No entanto, a atualização destes conteúdos programáticos deve ser questionada. Por exemplo: de que vale ensinar um jovem logo aos 14/15 anos a preencher uma declaração de IRS e não se abordar, sequer ao de leve, temas correntes com que se cruzam nas redes sociais como criptomoedas, ETF ou NFT? É neste desfasamento entre o que se ensina e o que chega aos jovens no ecrã do telemóvel – desde casinos ilegais a estilos de vida milionários de influencers pseudo especialistas em finanças – que grassa o perigo das decisões pouco informadas.

Saber que o filhos têm umas aulas de Educação Financeira até pode transmitir algum conforto aos pais, mas lá está: é uma segurança com alicerces frágeis. Por isso, nada como ter um papel mais ativo. Pequenos passos como, por exemplo, mesmo com supervisão, deixar que sejam os mais novos a fazer uma compra no supermercado, selecionando os bens essenciais, comparando os preços e executando os pagamentos. Mais tarde, eles irão agradecer.

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