Estudo diagnosticou competências financeiras de quase 4200 alunos portugueses.
Estudo diagnosticou competências financeiras de quase 4200 alunos portugueses.Foto: Arquivo DN

Esmagadora maioria dos jovens sem literacia financeira acha que sabe e arrisca-se a perder dinheiro

Banco de Portugal alerta que, "entre os alunos sem competências básicas, 74% acredita saber gerir o seu dinheiro". "Este excesso de confiança aumenta o risco de decisões financeiras pouco informadas".
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A esmagadora maioria dos jovens portugueses sem o mínimo de conhecimentos e competências ao nível financeiro -- como conseguir distinguir os riscos associados às inúmeras opções de aplicações financeiras que hoje existem no mundo e na internet -- o equivalente a 74% desses jovens iliterados, com 15 anos de idade, acha que sabe gerir dinheiro, tem poucas dúvidas e "excesso de confiança".

Estas pessoas estão assim muito mais expostas a serem vítimas de fraude e de incorrer em perdas financeiras, avisa o Banco de Portugal (BdP), que esta segunda-feira divulgou um estudo sobre o tema.

O novo artigo divulgado em antemão e que irá constar do próximo boletim económico do BdP, intitulado "Um retrato da literacia financeira em Portugal", foi analisar com maior detalhe, e com mais foco no caso nacional, os resultados de um outro estudo recente da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE), designadamente "do módulo do PISA 2022 dedicado à literacia financeira dos estudantes de 15 anos, no qual participaram 4075 alunos portugueses".

Olhando para este universo de jovens com 15 anos de idade, mais de 15% desta população residente em Portugal mostrou não ter o mínimo de competências para gerir dinheiro.

No entanto, isso não parece demover a grande maioria destes jovens de embarcarem em aventuras financeiras, muitos deles usando as possibilidades existentes na internet, algumas delas pouco claras e perigosas do ponto de vista financeiro.

Segundo o BdP, "o desempenho em literacia financeira dos alunos de 15 anos em Portugal com o de outros países da União Europeia que participaram no inquérito. A pontuação média dos alunos portugueses situa-se em níveis semelhantes aos observados na maioria dos países considerados, não se destacando de forma significativa no contexto internacional".

O pior vem depois, quando estes jovens portugueses se aventuram nas aplicações financeiras.

Há uma miríade de possibilidades: criptomoedas, ativos tokenizados, etc.

Ou seja, em termos de iliteracia financeira, a proporção de jovens estudantes portugueses com capacidades mínimas ou nulas para interpretar produtos financeiros está mais ou menos equiparada às de outros países europeus. O estudo da OCDE teve por base o referido inquérito que abrangeu de forma completa nove países.

O peso da iliteracia jovem (com idades à volta dos 15 anos) é maior entre os estudantes de Itália, Hungria e Países Baixos (todos com perto de 18% de miúdos "sem competências básicas").

Como referido, em Portugal, essa percentagem ronda 15,5% do total de jovens alunos com 15 anos. Em Espanha e Áustria, o grau iliteracia financeira é um pouco superior (cerca de 17% do total). Os casos menos maus são os da República Checa (15,3%), Polónia (14,8%) e Dinamarca (10,9%).

Miúdos portugueses que sabem pouco ou nada têm "excesso de confiança" e erram

O estudo do banco central governado por Álvaro Santos Pereira explica que "a OCDE classifica os estudantes em várias categorias, consoante as tarefas que estes realizam com sucesso".

"Nos extremos destas categorias estão os estudantes sem competências básicas para utilizar adequadamente a informação para tomar decisões que fazem parte do seu dia a dia e os que têm um desempenho de topo, aplicando conceitos complexos, que poderão apenas tornar-se relevantes nas suas vidas a longo prazo".

"Em Portugal, a percentagem de alunos que não adquiriram competências básicas (15,5%) é comparável à observada noutros países europeus", no entanto, "em contraste, a percentagem de alunos com competências de topo é relativamente mais reduzida (6,6%), situando-se abaixo da registada na maioria dos países considerados, com exceção da Espanha e da Itália".

Depois surge a conclusão mais inquietante. O BdP alerta que "mesmo entre os alunos sem competências básicas, 74% acredita saber gerir o seu dinheiro" e que "este excesso de confiança aumenta o risco de decisões financeiras pouco informadas".

Jovens menos prudentes

Ainda sobre os jovens, o BdP usa um indicador que mede a qualidade "das atitudes e dos comportamentos financeiros".

Aqui, "os indivíduos entre os 18 e os 29 anos obtêm, em média, uma pontuação em comportamentos financeiros 13 pontos percentuais abaixo da alcançada pelos indivíduos entre os 30 e os 59 anos".

"O indicador de atitudes financeiras é mais elevado nos indivíduos que pertencem a agregados com menor rendimento, refletindo uma maior preocupação com a sua situação financeira no futuro e maior prudência."

Ainda sobre os jovens portugueses, o estudo do banco central nota que esta avaliação da literacia financeira "assume particular relevância num contexto em que uma proporção significativa dos estudantes já tem acesso e utiliza instrumentos financeiros no seu quotidiano".

"De acordo com o módulo de literacia financeira do PISA 2022, 38,1% dos jovens de 15 anos em Portugal detém uma conta bancária, 27,3% possui um cartão de pagamento e 18,7% utiliza uma aplicação financeira no telemóvel".

"Para além do acesso, a utilização efetiva destes instrumentos é também expressiva. No ano anterior ao do inquérito, 59,6% dos estudantes efetuaram pagamentos com cartão, 33% enviaram dinheiro através do telemóvel, 76% realizaram compras online e 55,1% efetuaram pagamentos recorrendo a aplicações móveis."

Assim, o BdP conclui que "estes resultados indicam que uma parte substancial dos jovens já interage com meios de pagamento digitais e toma decisões financeiras de forma autónoma, ficando também exposta a situações de fraude".

Mulheres, idosos e pobres têm menos conhecimentos

"Em Portugal, as mulheres, os idosos e os indivíduos com menores níveis de escolaridade ou rendimento apresentam níveis mais baixos de conhecimento financeiro", diz o mesmo estudo apresentado esta segunda-feira.

No país, existem "diferenças sistemáticas nos níveis de conhecimento financeiro em função das caraterísticas sociodemográficas dos entrevistados", observando-se "disparidades relevantes associadas ao género, à idade, ao nível de escolaridade e ao rendimento, com implicações importantes para a equidade e a inclusão financeira".

"Os homens apresentam, em média, um nível de conhecimento financeiro superior ao das mulheres (64,9% face a 56,8%)", "os níveis mais elevados de conhecimento financeiro observa-se nos indivíduos entre os 30 e os 59 anos, período em que se concentram tipicamente as decisões financeiras mais determinantes".

"Os níveis mais baixos são registados entre os mais jovens e, sobretudo, entre os indivíduos com 60 ou mais anos. No caso dos mais velhos, parte do diferencial está associado a um menor nível de escolaridade", refere o BdP.

Peso dos estudantes sem competências básicas e com competências de topo em Portugal e nos países da União Europeia que participaram no inquérito
Peso dos estudantes sem competências básicas e com competências de topo em Portugal e nos países da União Europeia que participaram no inquéritoFonte: Banco de Portugal
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