Desafio espacial

Leonídio Paulo Ferreira

Diretor-adjunto do Diário de Notícias

Publicado a

Uma das mais belas primeiras páginas dos 161 anos de história do Diário de Notícias é aquela que relata que Neil Armstrong pisou a Lua. Temos estado a acompanhar a missão Artemis II nos últimos dias, e, apesar do recorde de distância agora alcançado por humanos em relação à Terra, estamos longe do entusiasmo gerado por aquele histórico 20 de julho de 1969. Mas este regresso da NASA à Lua, faseado, relança as viagens humanas no espaço, que nas últimas décadas quase pareciam restringir-se às idas à Estação Espacial Internacional. Objetivos ambiciosos, como um regresso à Lua (depois da última alunagem ter sido em 1972) ou uma inédita viagem a Marte, estavam limitados a serem temas de filmes, mesmo que através de sondas e de telescópios de alcance gigantesco a exploração espacial nunca tenha parado.

Foram 12 os homens a pisar a Lua entre 1969 (Armstrong e Buzz Aldrin, com o terceiro membro da missão Apollo 11 a ser Michael Collins) e 1972 (Apollo 17). Todos americanos, com a chegada à Lua a ter um simbolismo muito especial na competição entre os Estados Unidos e a União Soviética na exploração espacial, que os soviéticos (hoje diríamos russos, e, de facto, Yuri Gagarine, primeiro homem no espaço, e Valentina Tereshkova, primeira mulher, são-no) lideraram em certos momentos, depois de terem surpreendido o mundo em 1957 com o lançamento do Sputnik, o primeiro satélite.

Hoje, a exploração espacial conta com mais participantes, mas se pensarmos de novo na Lua como fator distintivo, só mais quatro países além dos Estados Unidos fizeram algum tipo de alunagem (mas não-tripuladas) e, tirando a União Soviética/Rússia, todos – ou seja o Japão, a China e a Índia – já no século XXI.

"‘O século XXI começou hoje’, foi um dos títulos da primeira página do DN de 21 de julho de 1969, o dia seguinte.”
"‘O século XXI começou hoje’, foi um dos títulos da primeira página do DN de 21 de julho de 1969, o dia seguinte.”Arquivo DN

No contexto da Guerra Fria, a bandeira americana na Lua tornou-se uma forte imagem de propaganda para Washington, que Moscovo desvalorizou o mais possível, no contexto de um conflito ideológico travado em várias frentes. Quando Armstrong pisou a Lua, os Estados Unidos combatiam no Vietname contra os comunistas apoiados por Moscovo, enquanto na Checoslováquia ainda estava fresca a memória dos tanques soviéticos a entrarem em Praga um ano antes para esmagar uma “Primavera” que sonhava trazer as liberdades do Ocidente para o outro lado da Cortina de Ferro.

Talvez a trégua mais bonita dessa Guerra Fria que durou quatro décadas tenha sido a acoplagem, em 1975, de uma nave Apollo com uma nave Soyuz e o aperto de mão entre os astronautas americanos e os cosmonautas soviéticos. Era a época da détente, quando as duas superpotências negociavam para atenuar a sua rivalidade e minimizar o risco de uma guerra nuclear.

O colapso da União Soviética em 1991 pôs fim à Guerra Fria, mas talvez se possa dizer que o tal aperto de mão abriu portas para depois se construir a Estação Espacial Internacional, que se manteve um exemplo de cooperação internacional mesmo no pior momento de choque entre americanos e russos, nos meses logo pós-invasão da Ucrânia em 2022.

"Talvez a trégua mais bonita dessa Guerra Fria que durou quatro décadas tenha sido a acoplagem, em 1975, de uma nave Apollo com uma nave Soyuz e o aperto de mão entre os astronautas americanos e os cosmonautas soviéticos."

Ora, colaboração internacional (incluindo empresas) é provavelmente a melhor fórmula possível para desenvolver a conquista do espaço, mesmo que no passado a competição tenha dado também resultados. E este programa Artemis II conta com parceiros como a Agência Espacial Europeia e um dos quatro astronautas pertence à Agência Espacial Canadiana, mesmo que seja a NASA que está no comando, o que representa um grande feito dos Estados Unidos no contexto da exploração espacial e do próprio desenvolvimento da ciência e da tecnologia. Mostra bem do que a América é capaz de conseguir quando está preparada, motivada, e com um objetivo claro. Foi também o que aconteceu nos anos 1960 com o programa Apollo. E por isso Armstrong se tornou um herói não só americano, mas mundial.

“O século XXI começou hoje”, foi um dos principais títulos da primeira página do DN da segunda-feira, 21 de julho de 1969, o dia seguinte. Agora é o século XXI que continua e acelera… e a ideia dos americanos é pisar de novo a Lua já em 2028 (antes dos taikonautas da China, esperam – afinal nunca deixou de haver competição no espaço). Depois, objetivo: Marte – um tremendo desafio para a Humanidade.

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