Tem-se falado muito da inevitabilidade da hegemonia dos EUA ser substituída por um Mundo tripolar liderado pelos EUA, pela China e pela Rússia.É, desde logo, uma simplificação analítica colocar a China e a Rússia no mesmo patamar.Apesar da relevância militar, a Rússia – se atendermos ao seu PIB per capita nominal e à sua dinâmica de desenvolvimento económico – estará sempre limitada a ser uma potência intermédia liderada pela China, numa perspectiva de longo prazo.Numa perspectiva de longo prazo, faria mais sentido falar-se num Mundo bipolar EUA-China, em que a Rússia se comportará como uma aliada da China, com “zonas de autonomia decisória” circunscritas a algumas regiões da Europa e da Ásia (a designada “Euro-Ásia Central”), a alguns países africanos (mais por razões conjunturais do que estruturais), mas condicionada pela “estratégia geral” chinesa.Nesse caso, haveria um Mundo bipolar EUA-China e seu Estado Anexo (i.e., a Federação Russa), Estado esse que estaria na linha de frente nos contactos mais problemáticos a Ocidente.Mas, uma análise deste tipo esquece algo de fundamental, a saber, a UE e seus países aliados a Ocidente, incluindo o Reino Unido, o Canadá, a Noruega e a Suíça, entre outros países menos relevantes.E esquece um conjunto de países que poderão vir a integrar a “Plataforma Democrática Asiática”, com destaque para o Japão, a Coreia do Sul, a Nova Zelândia, a Austrália e, eventualmente, a Índia (dependendo a sua inclusão neste conjunto de países da evolução do seu relacionamento com a China e a Federação Russa, num futuro próximo).A Europa é, hoje em dia, se considerarmos o seu PIB nominal, a segunda maior potência do Mundo (reforçando esta conclusão a consideração do PIB per capita e dos Índices de Desenvolvimento Humano mais diversos, designadamente, o IDH-D e o IDH-DS), podendo, ainda, converter-se na terceira ou quarta maior potência militar do planeta e sendo a região mais relevante e mais avançada do Mundo em termos de Defesa dos Direitos Humanos.A “Plataforma Democrática Asiática” representará cerca de 70 a 75% do poderio económico chinês, correspondendo a cerca de 20 a 23% da população mundial, contando com aliados fortes em regiões da Ásia e do Continente africano. Caso se mantenha a orientação “trumpista” na liderança política dos EUA, não será de excluir uma aliança política entre a Europa e a Plataforma Democrática Asiática, a qual passaria a constituir o terceiro pilar de um Mundo tripolar e não bipolar.Faria, nesse caso, plenamente sentido falar-se de um mundo tripolar constituído, essencialmente, pelos seguintes espaços:– o espaço liderado pelos EUA, que se estenderia a um conjunto de democracias tendencialmente iliberais (que, na prática, seriam regimes autoritários ou para-autoritários), compreendendo grande parte do Continente Americano (mas, sempre com excepção do Canadá), eventualmente, parte do Ártico, parte do Médio Oriente e um número reduzido de países europeus;– o espaço dominantemente autocrático-ditatorial, liderado pela China, com o apoio da Federação Russa, compreendendo, ainda, os países asiáticos da esfera de influência chinesa e da Federação Russa, alguns países que integram os BRICS e alguns países da euro-ásia central;– o espaço da UE, do Reino Unido, Noruega, Suíça e de outros países democráticos de outros continentes como, por exemplo, o Canadá, o Japão, a Coreia do Sul, a Nova Zelândia, a Austrália e, eventualmente, a Índia, espaço esse que corresponderia a uma grande região pluri-continental de defesa da Democracia e do Estado de Direito.Estes seriam os três grandes pólos de poder no Novo Mundo a ter em linha de conta, em termos geo-estratégicos.Haveria, ainda, uma quarta região que, apesar de dispor de importância menor, só o terceiro pólo de poderes estaria em condições de ajudar a promover, em termos de políticas consistentes orientadas para o desenvolvimento sustentável e ulterior integração numa “semi-periferia” em transição.Essa região corresponderia a um espaço subdesenvolvido e não alinhado ou alinhado em casos circunstanciais, envolvendo países africanos e alguns países isolados de outros continentes, sendo certo que esse espaço se caracterizará pela existência de grandes problemas de sobrepovoamento e de subdesenvolvimento económico e social.Em síntese, faz pouco sentido falar-se num Mundo Bipolar, tal como o encontramos, hoje em dia, com alguns países isolados em certos continentes, sendo, ainda, certo de que o espaço de negociações político-estratégicas se reconduzirá, no essencial, a três polos, a saber, EUA, China e Europa-Plataforma Democrática Asiática.Faz, portanto, mais sentido falar-se num Mundo Tripolar, em que a Europa terá um importante papel a desempenhar.Nem mais, nem menos…