Contar os indianos, contar com a Índia

Leonídio Paulo Ferreira

Diretor-adjunto do Diário de Notícias

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Quando visitei a Índia pela primeira vez, em 1997, o carro mais popular, sobretudo em Nova Deli, era o Ambassador, uma versão local do Morris Oxford, que tinha deixado de ser fabricado décadas antes na Grã-Bretanha. Hoje quem visita a capital indiana vê as avenidas cheias de carros modernos de marcas nacionais, como a Tata ou a Maruti, mas também últimos modelos japoneses e coreanos, estes especialmente populares entre as novas classes média e média-alta, que o crescimento económico tem fomentado. Na época, a economia indiana não constava entre as dez maiores, agora é a 4.ª e, em breve, calcula-se que será a 3.ª, só atrás de Estados Unidos e China. Mas a diferença que mais me impressiona entre a Índia de 1997 e a de 2026 é o número de habitantes.

Cheguei a escrever numa reportagem que a população eram quase mil milhões e que a cada ano se acrescentava o equivalente a uma Austrália! Agora são quase 1500 milhões e de ano para ano aumentam uns 12 a 13 milhões, ritmo, apesar de tudo, mais baixo de crescimento demográfico do que há três décadas (a Austrália em 1997 teria cerca de 19 milhões de habitantes), o que significa “apenas” aumentar o equivalente a meia Austrália de 2025 para 2026 (hoje são cerca de 27 milhões os australianos).

Ora, contar quantos são exatamente os indianos é um processo complicado, mas o recenseamento de 2027 começa neste 1 de abril de 2026 e vai ser pela primeira vez digital. Desde 2023, as Nações Unidas contabilizam a Índia como o mais populoso país do mundo, depois da ultrapassagem histórica à China, que continua acima dos 1400 milhões de habitantes, mas perde população, pois morre mais gente do que nasce.

"Na Índia, o número médio de filhos por mulher está igualmente em declínio, e já abaixo dos tais 2,1 que permite a renovação geracional. Mas uma multidão de jovens assegura que durante bastante tempo ainda haverá crescimento da população."
"Na Índia, o número médio de filhos por mulher está igualmente em declínio, e já abaixo dos tais 2,1 que permite a renovação geracional. Mas uma multidão de jovens assegura que durante bastante tempo ainda haverá crescimento da população."Orlando Almeida

Mesmo o fim da política do filho único, que foi a fórmula chinesa para contrariar uma explosão demográfica que anulasse o crescimento económico da era pós-Mao Tsé-tung, não está a ter os efeitos esperados. Tal como nos países ricos do Ocidente, na Coreia do Sul ou no Japão, as famílias chinesas preferem um ou, no máximo, dois filhos e não se dá a substituição das gerações, pelo contrário, acelera-se o envelhecimento da sociedade. É preocupante para o regime.

Na Índia, o número médio de filhos por mulher está igualmente em declínio, e já abaixo dos tais 2,1 que permite a renovação geracional. Mas uma multidão de jovens assegura que durante bastante tempo ainda haverá crescimento da população. Atualmente, a idade média na Índia anda próxima dos 30 anos, na China são 40 anos.

A vitalidade demográfica da Índia traz-lhe vantagens na competição internacional, pois dispõe de abundante população ativa e o peso dos encargos com os idosos ainda é reduzido. É uma situação que, enquanto aconteceu na China, facilitou a transformação do país na fábrica-mundo, com anos sucessivos de crescimento económico de dois dígitos, tendo o sucesso das reformas económicas lançadas no final dos anos 1970 por Deng Xiaoping conduzido o país a 2.ª maior economia mundial logo em 2010, ultrapassando então o Japão.

Mas há razões para crer que o sucesso indiano será mais gradual, até porque, sendo a democracia o modelo de desenvolvimento, está mais sujeito a debate e até mudanças do que no caso da China, onde o Partido Comunista se confunde com o Estado e manda. Também a diversidade étnica e religiosa da Índia, a contabilizar no novo Censo, traz desafios diferentes dos da China, onde 90% ou mais da população é han.

É longo ainda o caminho da Índia para atenuar o fosso económico com a vizinha China, importante parceiro comercial, mas também competidor, (...). Mas a economia indiana aponta para um crescimento de 7%, o mais expressivo entre as grandes economias, enquanto o da China, nas previsões oficiais, ficará abaixo dos 5%.

Para quem governa a Índia — e desde 2014 o primeiro-ministro é Narendra Modi, que como ministro-chefe do Gujarate já se distinguira como competente a gerir a economia —, a juventude dos indianos, associada ao número, é um fator de competitividade. Mas também traz grandes responsabilidades: são muitos milhões de crianças para escolarizar, muitos milhões de jovens adultos para integrar no mercado de trabalho. E a necessidade de garantir ao eleitorado que as políticas económicas, e não só, são justas, seja a população afetada hindu, muçulmana, sikh ou cristã, e viva em Caxemira, no Kerala ou no Bengala Ocidental, ou na grande metrópole que é Mumbai, a antiga Bombaim, que continua a ser a capital económica. A aposta na Educação é vital.

O Partido Nacionalista Hindu de Modi é tradicionalmente a favor de uma economia mais aberta, mas o próprio Partido do Congresso, que governou longamente desde a independência, em 1947, também há muito percebeu que um exagerado protecionismo joga contra a capacidade de criar riqueza, num país ainda com muitos pobres.

É longo ainda o caminho da Índia para atenuar o fosso económico com a vizinha China, importante parceiro comercial, mas também competidor, e o rendimento médio de um chinês é ainda bastante superior ao de um indiano (tal como o de um americano é muito acima de um chinês). Mas a economia indiana aponta para um crescimento de 7%, o mais expressivo entre as grandes economias, enquanto o da China, nas previsões oficiais, ficará abaixo dos 5%.

Só para realçar o gigantismo demográfico da Índia, e o esforço colossal de realizar um recenseamento, o Uttar Pradesh, o maior dos estados indianos, tem cerca de 240 milhões de habitantes. Se fosse um país, seria o sexto maior do mundo (tem mais gente do que, por exemplo, o Brasil.) Ou seja, não esquecer que a Índia é uma potência cada vez mais importante do contexto internacional e, num crescente cenário de multipolaridade, há que reforçar a cooperação com ela, algo que Portugal, com velhos laços históricos, já percebeu, e a própria União Europeia também, basta pensar o acordo de livre-comércio assinado este ano.

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