Como prevenir o que não se conhece a tempo?

Carlos Ferro

Editor-executivo do Diário de Notícias

Publicado a

Portugal continua entre os países da União Europeia com maior mortalidade rodoviária: em 2024 registou 58 vítimas mortais por milhão de habitantes, quando a média europeia foi de 45. Apesar das promessas políticas, continua a faltar um instrumento essencial para inverter esta realidade: informação atualizada.

Sabe-se que esteve em consulta pública até ao dia 18 de julho a Estratégia Nacional de Segurança Rodoviária - Visão Zero 2030, em que o Executivo frisa pretender reduzir em 50% os mortos e feridos graves até 2030 e alcançar zero vítimas em 2050. O objetivo merece consenso. O problema começa quando se analisa a capacidade do Estado para identificar rapidamente onde deve atuar.

Olhando para os dados disponibilizados diariamente pelo Observatório da ANSR a tarefa é gigante. Por exemplo, de 1 de janeiro a 28 de julho, registaram-se 82.685 acidentes que comparam com os 76.380 do mesmo período do ano passado. Quanto às vítimas mortais registaram-se 274, mais 31 do que as 243 contabilizadas no mesmo período do ano anterior.

E, quanto ao impacto económico dos acidentes, os dados mais recentes divulgados – referentes a 2019 – apontavam para um custo de 3% do Produto Interno Bruto (na altura 6 mil milhões de euros, atualmente serão cerca de 9 mil milhões de euros).

Perante este cenário, seria de esperar rapidez nas decisões sobre a intervenção nas vias para colmatar deficiências e promover uma melhor segurança.

Mas é neste pedido de deteção e intervenção rápida que surgem problemas que, na minha opinião, são graves e impedem ações provavelmente decisivas nas estradas. Como é possível ter rapidez a resolver um problema rodoviário quando os dados sobre os pontos negros (lanços de 200 metros onde se registaram pelo menos cinco acidentes com vítimas) mais recentes dizem respeito a 2023? Ou seja, haverá zonas não-identificadas oficialmente que poderão ser problemáticas? E as recomendações de obras nas vias feitas pela ANSR divulgadas são de 2022.

Portugal não conseguirá atingir a Visão Zero apenas com objetivos ambiciosos no papel. A segurança rodoviária começa por conhecer, em tempo útil, onde estão os problemas. Sem dados atualizados, o país continuará a reagir aos acidentes em vez de os prevenir.

Como prevenir o que não se conhece a tempo?
Há 40 pontos negros nas estradas. “Mas há muitos mais do que aqueles identificados”
Como prevenir o que não se conhece a tempo?
Aumento de 40% de mortes na estrada. Tecnologia e fiscalização para acabar com “sentimento de impunidade”
image-fallback
Mudar mentalidades para chegar à “visão zero”
Diário de Notícias
www.dn.pt