Portugal tem identificados 40 pontos negros nas estradas nacionais, um dado avançado pela Autoridade Nacional de Segurança Rodoviária (ANSR) e referente a 2023, mas que pecará por escasso. “Há muitos mais do que aqueles que são identificados pela metodologia da ANSR”, garante ao DN Manuel João Ramos, presidente da Associação de Cidadãos Auto-Mobilizados.Um ponto negro é, seguindo a definição da ANSR, um “lanço de estrada com extensão máxima de 200 metros no qual se registaram, no ano em análise, pelo menos cinco acidentes com vítimas”. E, segundo as informações oficiais os dados mais recentes dizem respeito a 2023, ano em que foram divulgadas 40 localizações deste tipo de zonas, oito delas repetidas - o que é uma subida em relação aos 26 enunciados como tendo sido referenciados em 2022 e aos 21 em 2021. Questionada pelo DN a ANSR adiantou que está “em execução a tarefa de cálculo de pontos negros de 2024”.De acordo com os documentos da ANSR, as zonas mais referenciadas são autoestradas e itinerário principais (IC20, em Almada, como um dos casos) e complementares (como o IC 19, e o IC 17 por exemplo) nas áreas metropolitanas de Lisboa e Porto. A Estrada Nacional 1 (numa zona do concelho de Santa Maria da Feira) e a Estrada Nacional 125 (Faro), são alguns dos casos referenciados. Refira-se que os 40 pontos negros identificados estiveram associados a 242 acidentes de viação, dos quais resultaram três vítimas mortais, 10 feridos graves e 360 feridos leves, segundo adiantou ao DN fonte da Infraestruturas de Portugal. “É preciso sacrificar vidas para resolver um problema” Os dados oficiais sobre lanços de estrada onde em 200 metros ocorreram, no mínimo, cinco acidentes com vítimas num ano, são contestados pela Associação de Cidadãos Auto-Mobilizados (ACA-M). “Tem de se identificar um ponto negro antes de ele seja um ponto negro”, começa por dizer ao DN Manuel João Ramos. Contestando a metodologia da ANSR para esses dados, o presidente da associação defende que uma “estrada não pode estar aberta ao público antes de ser certificada, antes de ser feita uma auditoria de segurança rodoviária” e frisa que a situação atual é “um ponto de partida totalmente imoral. É necessário que haja mortes na estrada e feridos graves para se resolver qualquer coisa. Ou seja, é preciso sacrificar vidas para resolver um problema”.O responsável da ACA-M sublinha que a maioria dos pontos - e alvo de recomendações para melhorar a segurança, sendo que estes relatórios de intervenção divulgados pela ANSR mais recentes dizem respeito ao ano de 2022 - são “IC’s e IP’s, isto é vias que fazem parte da rede transeuropeia de estradas”, mas lembra que onde há mais áreas problemáticas, mas não destacadas, é “nas estradas municipais, nacionais e arruamentos. É nas cidades, ruas e vilas que as estradas são piores. As câmaras não têm financiamento para melhorar as vias”. “Por isso digo que há muitos mais pontos negros do que aqueles que são identificados. Portanto, estamos a falar de figuras de retórica. Do que vale identificar 40 pontos negros quando sabemos que há muitos mais? Vamos ficar à espera que haja mais não sei quantas mortes para identificar novos pontos? Isto é a demissão por parte do Estado da sua responsabilidade de preservação da vida e da segurança dos utentes”, adianta Manuel João Ramos.Segundo o presidente da ACA-M já houve diversos planos e estratégias rodoviárias, mas que acabam por não ter conclusão. “Era o Plano de Intervenção Rodoviária (2000 e 2002), depois foi o Plano Nacional de Segurança Rodoviária de 204, a seguir a Estratégia de 2008 e por aí fora. Mas todas morreram na praia”. Perante este cenário, defende que se devia “dotar os municípios de meios humanos, técnicos e financeiros, e a Estradas de Portugal, para conduzir auditorias de segurança rodoviária, para fazer o básico. Ou seja, o Estado e os concessionários colocam à disposição dos utentes, dos cidadãos, estradas que não certifica”. E conclui: “Se nós nos concentramos nos 40 pontos negros da ANSR, estamos a ver a árvore e a esquecer a floresta.”Infraestruturas de Portugal investe 224 milhões de eurosSe os dados oficiais mais recentes sobre o número de pontos negros nas estradas dizem respeito a 2023 - 29 pontos negros (73% do total) sob a gestão da Infraestruturas de Portugal (IP, SA), seis da Brisa (15%), dois sob a responsabilidade da Ascendi (5%), dois sob a Lusoponte (5%) e um sob a gestão da Concessionária NorScut (3%) -, já as recomendações efetuadas pela ANSR para que sejam melhoradas as condições nos lanços identificados incidem sobre o ano de 2022.Questionada pelo DN sobre o cumprimento das recomendações, fonte oficial da Infraestruturas de Portugal, a concessionária com mais chamadas de atenção para zonas que precisam de intervenção, frisou que essas diretivas dizem respeito ao ano de 2022 e que “24 situam-se em vias sob gestão direta da IP e cinco em vias subconcessionadas”.Explica que a empresa tem uma rede rodoviária com “uma extensão total de cerca de 15 000 km, integrando 10. 303 km de vias sob gestão direta, 1017 km de rede subconcessionada e 3682 km de rede desclassificada ainda não entregue”. Perante este cenário a IP adianta que tem em implementação um “Plano para a Redução da Sinistralidade Rodoviária 2024-2030, prevendo um investimento global de 224 milhões de euros”, nas áreas sob a sua responsabilidade.No que diz respeito a este ano, a empresa tem previsto “a concretização de 36 ações de médio e longo prazo, a realização de cinco estudos de segurança rodoviária e a execução de 41 ações em obra ou em fase de execução, representando um investimento estimado de cerca de 10 milhões de euros”.carlos.ferro@dn.pt.Lisboa tem equipa que corrige problemas em zonas de acidentes de viação.Aumento de 40% de mortes na estrada. Tecnologia e fiscalização para acabar com “sentimento de impunidade”