Cento e sessenta e dois mortos nas estradas portugueses em praticamente quatro meses lançaram o alarme nas autoridades responsáveis pela segurança rodoviária nacional. O número de pessoas que perderam a vida nas vias nacionais entre 1 de janeiro e 28 de abril foi superior em 47 ao mesmo período do ano passado. E se nos referirmos aos acidentes, estes passaram de 44.015 para 49.368 - mais 5353.Foi a análise à evolução destes dados - que mostram um aumento de 40,9% de mortes na sequência de acidentes, quando comparados com o ano anterior - que levou o Governo, por intermédio do Ministério da Administração Interna, a avançar com medidas e propostas de mudanças de legislação com o objetivo de alterar estas estatísticas que são muito mais que isso, pois representam perda de vidas e/ou ferimentos que podem influenciar a qualidade de vida dos ocupantes dos veículo envolvidos.A contribuir para estes números, a Autoridade Nacional de Segurança Rodoviária (ANSR) identifica ao DN como fatores relevantes “a sinistralidade grave associada à velocidade e ao álcool”.Uma análise a que o presidente da ANSR, Pedro Clemente, acrescenta o “aumento de veículos a circular e a rede viária que cresceu 31,2% entre 2000 e 2025. Temos também mais aluguer de viaturas devido ao aumento do turismo”. “Nunca tivemos tanta gente nas estradas como atualmente. Nunca tivemos tantas estradas como agora. Mas, ao mesmo tempo, queremos estradas seguras. E esse é o grande desafio”, adianta ao DN.Pedro Clemente reconhece que os primeiros meses do ano foram “dramáticos”. Para o responsável da ANSR, a atual situação no que diz respeito à sinistralidade rodoviária “exige uma reflexão”. “O mundo é feito de mobilidade, hoje em dia somos todos nómadas. Há muitas mortes e sobretudo feridos graves em idades produtivas”. Lembra ainda um outro fator que impacta com a circulação rodoviária: “A meteorologia tem influência.”Tecnologia, radares e uma reunião em estreiaPerante os dados fornecidos pelas forças de segurança, o Governo decidiu avançar para mudanças na legislação com o anúncio da preparação de alterações ao Código da Estrada, mas não só. Para amanhã está agendada “uma reunião do Conselho de Segurança Rodoviária para apreciar a evolução da sinistralidade. Vai ser presidido pelo secretário de Estado da Proteção Civil. Este conselho nunca tinha reunido e foi criado em 2007”, conta. A ANSR confirma ao DN, por exemplo, que está previsto o “reforço da rede SINCRO de radares e a aprovação da Estratégia Nacional de Segurança Rodoviária - Visão Zero, com meta de redução de 50% das vítimas mortais até 2030”. O uso de radares poderá ser um dos pontos-chave dessa estratégia a que o próprio ministro da Administração Interna, Luís Neves, já se referiu.Pedro Clemente explica que se podem aproveitar as “câmaras que estão instaladas nas estradas para ver o fluxo de trânsito e detetar, por exemplo ultrapassagens em sítios onde isso é proibido. Por outro lado, o código da estrada também tem que trazer respostas de forma a que toda a infração tenha o sancionamento”..Ou seja, de acordo com o responsável da ANSR, o objetivo é que “a partir do momento em que a pessoa é multada vamos acelerar essa punição para que não se pense que vai prescrever mais tarde ou mais cedo. Não pode. Já estamos a fazer do ponto de vista tecnológico aqui na ANSR um grande esforço para que não haja sentimento de impunidade. Temos de acabar o sentimento de impunidade relativamente às infrações cometidas”.Se, por um lado, as autoridades têm como objetivo a rapidez no tratamento das multas passadas aos infratores, por outro, a nova legislação também poderá incorporar uma “benesse” em determinadas situações.“Queremos tornar a estrada um espaço de cidadania, segura para todos. Por isso, a necessidade de um código que puna as condutas que são inadmissíveis e põem em causa a vida de terceiros. Mas, também pode premiar as condutas menos graves. Por exemplo, estacionar num local onde não podia, ser para residentes, e a pessoa não reparou, ou deixar passar um pouco o tempo do parquímetro. Nesse caso, como acontece em Espanha, as pessoas que paguem logo e assumam uma infração leve têm um desconto. São possibilidades que podemos ter”, adianta o presidente da ANSR.Aumentar a fiscalização e aposta na sensibilizaçãoOutra das estratégias a implementar - a par da reativação da Brigada de Trânsito da Guarda Nacional Republicana - é o aumento da fiscalização nas vias nacionais. “Vamos ter um reforço de fiscalização nas estradas, seja por via eletrónica, seja presencial, para detetar carros sem inspeção, que são um perigo para a circulação; sem seguro; condutores com excesso de álcool”, salienta.Além destas medidas, Pedro Clemente explica que “já está em circuito governamental a Estratégia Nacional de Segurança Rodoviária e brevemente será posta à consulta pública. Paralelamente temos praticamente preparado um plano de ação para o biénio 2026-27, que tem medidas concretas e que preveem também os meios financeiros a aplicar”.Neste ponto, refira-se que a ANSR investiu no primeiro trimestre deste ano cerca de 700 mil euros em campanhas e ações de sensibilização ou seja mais 60% do que em igual período do ano passado quando tal verba foi na ordem dos 430 mil euros.A importância das autarquiasNa estratégia para tentar reduzir as estatísticas de sinistralidade rodoviária um dos protagonistas são as autarquias, até porque o país tem o perfil de mortalidade urbana mais elevado da União Europeia, como se pode ler na documento Evolução da sinistralidade e análises comparativas”, que enquadra o período de 2022 a 2025 e divulgado recentemente pela ANSR. Nesse documento, é referido que Portugal tem “uma taxa de 55% das mortes a ocorrerem em zonas urbanas, face a 39% na média europeia e apenas 27% na vizinha Espanha”.No mesmo explica-se que enquanto fora das localidades existe uma tendência de redução da mortalidade “-17,8% a 24 horas após o acidente e -15,8% a 30 dias após o acidente”, dentro das localidades existiram aumentos “de 8% e 5,9%, respetivamente”.Dados que levam a Autoridade a, em ligação com a Associação Nacional dos Municípios Portugueses, a defender que todas as autarquias implementem “um plano municipal de segurança rodoviária”. “Temos projetos pilotos, como em Cascais com as passadeiras inteligentes. E também vamos expandir os radares na cidades, para levar a abrandamentos”, conclui. DADOS49.368Acidentes De 1 de janeiro a 28 de abril, registaram-se em Portugal 49.368 acidentes. No período homólogo do ano passado as forças de segurança aconteceram 44.015.162Mortes Até ao dia 28 de abril, tinham morrido nas estradas nacionais 162 pessoas - 158 no Continente e quatro nas regiões autónomas. Em 2025, as autoridades tinham registado 115 mortes.755Feridos graves Dos mais de 49 mil acidentes que aconteceram entre 1 de janeiro e 8 de abril resultaram 755 feridos com gravidade. Mais 15 que em igual período do ano passado.12.486Feridos menos graves Este foi o único dado da sinistralidade rodoviária que sofreu uma redução no início de 2026. Segundo a ANSR foram 12.486 os feridos de menor gravidade na estradas nacionais. Em 2025 foram 13.055.700 milCampanha Nos primeiros três meses do ano foram investidos 700 627,21 euros em campanhas de e ações de sensibilização. Um aumento de 60,49% quando comparado com 2025.1 milhãoPrevenção De acordo com os dados fornecidos ao DN, está previsto um investimento de 1 093 495, 06 de euros em ações de prevenção. .Montenegro aparece em vídeo sem cinto de segurança, numa altura em que o Governo apela à segurança rodoviária