‘Carmina Burana’ e a interpretação de textos com mil anos

Vítor Moita Cordeiro

Nasceu em Lisboa em 1978. Contador de histórias, apaixonado por música antiga, etnografia e cinema esquecido. É na política prática, aquela que move o mundo, que encontra os desafios que partilha no jornal. Trabalha no Diário de Notícias desde 22 de agosto de 2023.

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No imaginário de uma ou mais gerações, há um anúncio de um after shave que associa um mar turbulento e um surfista a uma música épica que fica plasmada nos ouvidos – e não sai de maneira nenhuma –, mesmo que seja praticamente impossível trauteá-la com rigor, porque tem uma letra aparentemente impercetível e porque implica alguma técnica. Refiro-me à abertua conhecida como O Fortuna, da obra intitulada Carmina Burana, na versão composta pelo compositor alemão Carl Orff, que é imensa, magistral, enorme, tempestuosa (como o anúncio à loção para a barba) e todos os outros adjetivos que se lhe possam atribuir. Bom, também é bonita, ainda que eu seja um rezingão no que diz respeito a progresso na música. Sou apaixonado pela música antiga e, parafraseando algo que disse o diretor da Gulbenkian Música – sobre a continuidade face ao que estava instituído na programação desta instituição, que surge agora com o seu cunho –, se algo não está estragado, não é preciso arranjá-lo.

Carmina Burana deve sinificar, em latim, algo como Canções de Benediktbeuern, numa referência ao mosteiro beneditino na Baviera. É importante salientar que as várias dezenas de textos que compõem esta coleção, escritos algures entres os séculos XI e XIII, incorporam línguas como o latim, que era a língua franca da altura, alguma forma de alemão medieval, provençal, occitano e outras normas de proto-francês. São textos satíricos, que descrevem sentimentos, alguns libidinosos, e evocam um momento de liberdade que se calhar só a poesia poderia evocar. Parece tudo uma celebração.

Há uma semana, fui à Aula Magna, em Lisboa, ver a interpretação desta cantata que Orff musicou – de forma sublime, na minha opinião – baseada nestes textos. Estava a tocar a Orquestra Filarmónica Portuguesa, apoiada pelo Coro Sinfónico Lisboa Cantat e pelo Coro Infantil da Academia de Música de Alcobaça, aos quais ainda se juntaram três solistas. A soprano Bárbara Barradas, com um vestido com uma cor vagamente indefinida, entre o carmim e um laranja explosivo, surpreendeu com uma voz que nem a imaginação mais ousada do século XIII poderia ter associado àqueles textos. E não tropeçou no vestido, ainda que metade do tecido que o compunha estivesse concentrada nas mangas, que se arrastavam pelo chão, como se pertencessem a uma criatura pensada por Tolkien.

Em relação aos poemas, alguns deles foram escritos há mil anos e evocam o fantasma da época, entre gritos de liberdade proferidos por criaturas mitológicas ou humanos que a elas se associam, mas acima de tudo revelavam a criatividade que só poderia ser exprimida desta forma por quem tinha o privilégio de saber escrever. Além disso, são textos profanos.

Um dos momentos mais caricatos aconteceu quando foi cantado o texto que começa com Tempus est iocundum.

É preciso que, por breves momentos, desviemos, num sentido semiológico, a atenção do que está a ser cantado, até porque, como referi há umas linhas, envolveu a contribuição das vozes angelicais – tal como imaginamos o que seria vocalizado pelos querubins de Botticelli – do Coro Infantil da Academia de Música de Alcobaça.

Com um andamento vertical, saltitante, a música de Carl Orff, escrita algures entre 1935 e 1936, em pleno Terceiro Reich, materializou-se nas vozes das crianças, que cantavam Tempus est iocundum/o virgines,/modo congaudete/vos iuvenes./Oh - oh, totus floreo,/iam amore virginali/totus ardeo,/novus, novus amor est,/quo pereo.

Antes da tradução livre e nada rigorosa do latim – que é onde reside a parte inusitada –, quero referir que Carl Orff foi um dos compositores alemães que não se exilou durante a Segunda Guerra Mundial, defendendo sempre uma separação entre arte e política. Por este motivo, a sua reintrepretação da compilação Carmina Burana foi estreada no dia 8 de junho de 1937 na Ópera de Frankfurt, na Alemanha, sob a batuta do maestro Bertil Wetzelsberger, com uma encenação de Oskar Wälterlin.

Em relação ao Tempus est iocundum, cantado pelas crianças, foi algo como: O Tempo é de alegria,/ó virgens,/rejubilem com elas,/ó jovens rapazes./Toda eu floresço/com amor virginal/toda eu ardo,/mas é por um amor novo/ que eu pereço.

Não sei se era a intenção de Orff colocar anjos a cantar este texto.

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