Haverá, a partir desta qitnta-feira, 26 de fevereiro, no Pequeno Auditório do Centro Cultural de Belém, em Lisboa, adufes em palco e a voz duma mulher analfabeta que transporta a sua própria história e uma imagem da ruralidade de Portugal. Ti Chitas - a voz que é uma montanha é uma ópera encenada por Teresa Gentil e Lander Patrick baseada na vida de Catarina Chitas, nascida em 1913 em Penha Garcia e que “teve uma vida muito dura”, explica a criadora deste espetáculo ao DN, garantindo que, precisamente por isso, fez tudo “com muito cuidado, com ternura”, a partir de uma gravação “muito intensa da Ti Chitas” - como era conhecida - “a falar da sua vida” em 1972 com o etnólogo corso Michel Giacometti.Tudo começou há cerca de dez anos, quando Teresa Gentil estudava Etnomusicologia na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. “Sempre gostei muito daquela zona da Beira Baixa. A nível musical é um repositório incrível de música e de tradições também”, descreve aludindo à zona onde Catarina Chitas nasceu e viveu..Com o interesse cimentado, Teresa Gentil diz que chegou a pensar noutros espetáculos em torno desta mulher, mas outras coisas surgiram pelo caminho. Como tem trabalhado em ópera, acabou por chegar agora a este formato e com a Orquestra Barroca D’Aquém Mar, dirigida por Pedro Castro. A ideia, continua Teresa Gentil, era “pegar na voz dela e pô-la com a orquestra”. E foi isso que aconteceu, num exercício ousado entre tecnologia e música ao vivo, interpretada com instrumentos historicamente informados e cantores em palco. Ainda há margem para composições originais, especificamente escritas para este espetáculo, que convivem com fusões de músicas de Catarina Chitas com composições barrocas.O público encontrará ainda “uma camada da biografia das próprias canções do cancioneiro. No fundo, o cancioneiro português também tem uma biografia. Porque são canções do berço à cova. Temos canções desde o nascimento até ao enterro dos mortos”, acrescenta Teresa Gentil, levantando o véu desta ópera que é sobre várias vidas.A ópera começa uma música autobiográfica de Catarina Chitas – Toda a vida fui pastora –, “onde ela acaba por narrar um pouco a sua história de vida. E nota-se que aquelas quadras são dela. Notoriamente. Portanto, é uma canção ainda longa que é escrita por ela”, explica Teresa GentilA investigadora revela que extraiu os pontos mais relevantes da história de Catarina Chitas para que o percurso seja compreendido pelo público, que serão “introduzidos no espetáculo com portais poéticos. São coisas que saem um bocadinho fora daquele ambiente. Todos esses exemplos são construídos com a voz dela, e isso é a grande componente visual do espetáculo.”.“Todas as pessoas que estão em palco são a determinada altura Chitas. Cada uma daquelas pessoas é a Catarina Chitas. Porque, no fundo, a história da Catarina é igual a das outras senhoras, vizinhas. Algumas ainda estão vivas, têm agora quase 100 anos. Que a conheceram e que tinham uma vida muito semelhante à dela”, relata Teresa Gentil, acabando por sublinhar o papel da música na vida de Catarina Chitas.“Ela estava sempre a cantar e o dia-a-dia era muito duro, do ponto de vista físico, do trabalho. Mas sempre com esta ideia da superação através da música. Ou seja, a música tinha mesmo uma função de auxiliar na superação do dia”, continua a encenadora, que revela uma outra função destas músicas da Ti Chitas, como “violência”.“Quando uma mulher se casava, com a violência que havia no casamento, eu acho que [estas músicas] serviam muito como modo de aviso. É como as canções de embalar, que têm sempre letras muito duras, muito difíceis, e que acabam por servir como aviso”, explica Teresa Gentil.Através de Catarina Chitas, conclui a encenadora, esta ópera “é sobre a nossa memória, sobre a nossa voz coletiva, certamente”. .Setenta e nove bons exemplos de como 'Habitar Portugal'.Frida Orupabo e Neïl Beloufa. Programação do MAC/CCB para 2026 inclui artistas que usam "linguagem dos jovens"