Uma destas noites fui ao musical que Filipe La Féria imaginou para celebrar a extraordinária vida de Carmen Miranda. Um espetáculo único, um dos melhores da longa carreira de um criador que marca a cultura popular dos últimos 50 anos. Rendi-me outra vez à sua capacidade de contar, de imaginar cenários, ligações, à forma como dirigiu os atores, como os fez acreditar (e a nós) na verdade do palco. O meu agradecimento também imenso à Paula Sá, mais um talento da escola de Carlos Avilez – magnífica a sua Carmen. E a João Frizza que me surpreendeu pelo modo como deu vida ao melómano pai da nossa diva. Nascida um ano antes da República, em Marco de Canaveses, a história de Carmen diz sobre o que somos, sobre o que nos dá corda e sentido, sobre a esperança e o medo, sobre o que temos de universais e únicos, sobre a solidão que nos preenche e o sonho que nos move. Nasceu pobre, como uns anos mais tarde, Amália Rodrigues. Atravessou o Atlântico nos braços de sua mãe, uma viagem num barco de carga para o Brasil onde o pai, barbeiro e amante incurável da boémia, as esperava. Carmen simboliza a capacidade portuguesa de inventarmos mundos e construirmos pontes contra todas as lógicas. Nasce em Portugal, torna-se uma estrela no Brasil e acaba a sua vida na América onde chega a ser, na década de 1940 e 50, a atriz e cantora mais bem paga do mundo. Atuava nos melhores casinos, influenciou o futuro com a sua autenticidade, cantou temas que foram e serão cantados até ao fim dos tempos. Enriqueceu, mas guardava o dinheiro debaixo do colchão. Tornou-se milionária, mas nunca perdeu o medo de voltar a ser pobre ou então foi outra coisa, talvez nunca tenha deixado de ser a menina protegida pela mãe numa viagem de barco rodeada de homens com bafo a álcool e a fome. Carmen ofereceu ao mundo a sua luz inconfundível, era festa, alegria, futuro. Mas depois, entre as quatro paredes que a protegiam, deixava-se ir ao fundo dos fundos, afundava-se em bebidas brancas e ansiolíticos e numa tristeza absoluta. Alegrava os outros e fugia para casa onde, depois de fechar a porta, se entregava a uma loucura onde não existia caminho ou redenção possível. Foi a primeira diva portuguesa e de toda a América Latina a conquistar o mundo. De uma certa forma, Shakira faz parte da sua herança. Gabriel GarciaMárquez enamorou-se platonicamente pela então jovem cantora colombiana, deixou-se fascinar pela energia carismática daquela rapariga inteligente, bonita e talentosa. Como sucedeu com homens de poder ou até o mítico John Wayne pela nossa Carmen que desarmava reis e príncipes com uma genuinidade que os punha no lugar. Carmen cumpriu o seu destino. Foi maior do que a vida, abriu mundos como os nossos navegadores, teve coragem e ousadia sem nunca perder um sentido fatalista, o nosso fado, porventura uma parte da nossa essência. Só quem conhece a dor pode ambicionar a felicidade, só quem mergulha no abismo pode transformar a ingenuidade numa arma poderosa e distintiva. Fugiu da miséria, teve fama, luz, dinheiro, mas uma parte de si continuou a fugir para um lugar sem morada, talvez à procura de um Godot que nunca chega, que nunca chegará, como Sebastião escondido num nevoeiro eterno. Os portugueses são felizes abaixo dos trópicos, mas é uma felicidade contaminada pela tristeza da saudade, um permanente cisma. Tinha 46 anos quando partiu. Morreu de cansaço. Tinha estado numa gravação de um programa televisivo, recebeu depois convidados em casa e, na manhã seguinte, uma criada encontrou-a no corredor a caminho do quarto. Na mão tinha um espelho que, nessa madrugada, não a ajudou a tirar a maquilhagem. O seu funeral foi acompanhado por meio milhão de pessoas, nunca tal se vira. A morte é solidão, ausência dos outros. O silêncio torna-se insuportável, o social desaparece e a felicidade vai embora .