Cada um puxa a manta. No fim, todos passam frio

Colaboração não é só um verbo simpático. É engenharia de competitividade.
Ana Jacinto

Secretária-geral da AHRESP

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Quando uma empresa, uma cooperativa ou um setor da cadeia agroalimentar se apresenta a um grande comprador ou a um investidor estrangeiro, não deveria fazê-lo sozinho. À mesa têm de estar quem produz, quem transforma, quem distribui, quem dá expressão ao produto e representa o país. Um negócio internacional de escala exige uma resposta articulada, capaz de mobilizar toda a fileira em torno de uma oportunidade comum. Vários países europeus perceberam isto há décadas: colaborar não é um gesto de boa vontade, é engenharia de competitividade – gera escala, reforça a confiança entre os elos e aumenta a capacidade coletiva de resposta.

Portugal habituou-se a trabalhar em silos. Cada setor defende o seu espaço, protege a sua quota e guarda a sua informação, como se o segredo fosse sempre a alma do negócio. Mas a realidade mostra o contrário: os maiores ganhos surgem quando os diferentes elos da cadeia se articulam. Numa economia como a portuguesa, a cooperação entre os diferentes elos da cadeia agroalimentar e os decisores públicos não é um luxo. É uma condição de competitividade.

À primeira vista, os elos desta cadeia parecem concorrentes entre si e, por vezes, colidem. A produção quer vender melhor. A indústria precisa de transformar com margem. A distribuição procura eficiência e preço. A restauração e o alojamento turístico compram a montante e enfrentam, a jusante, um consumidor cada vez mais sensível ao preço. É natural que cada setor zele pela própria sustentabilidade. O problema começa quando todos tentam resolver isoladamente dificuldades que são, na sua maioria, comuns. Cada um puxa a manta para o seu lado – e a manta é sempre curta.

Custos de contexto, burocracia, licenciamento, energia, falta de escala, exigências de sustentabilidade, alterações climáticas e a dificuldade de chegar a novos mercados são desafios que atravessam toda a cadeia. Se cada setor insistir em enfrentá-los sozinho, continuaremos a desperdiçar energia e recursos onde deveríamos estar a criar valor e competitividade.

Há ainda distorções que exigem debate conjunto. A maçã colhida na árvore é tributada a 6% em Portugal Continental. Transformada em conserva, a taxa sobe para 23%. O sistema fiscal torna assim mais cara, precisamente, a versão do produto que incorporou mais trabalho – atravessando a cadeia a meio e criando interesses artificialmente divergentes entre quem planta e quem transforma. Na restauração, comprar determinados produtos a 23% e prestar um serviço tributado a 13% significa agravar a pressão sobre a tesouraria de empresas que já operam com margens muito reduzidas.

Por isso mesmo, discutir quem fica com a maior fatia interessa menos do que discutir como aumentar o tamanho do bolo. Se produtores, indústria, distribuição, restauração e alojamento turístico partilharem informação e compromissos, será mais fácil perceber onde se acrescenta custo sem acrescentar valor – e onde há margem para fazer diferente.

Há já bons exemplos desta lógica, e chegam sobretudo da restauração, embaixadora natural da produção nacional: plataformas colaborativas dedicadas ao pão, ao chocolate, à pastelaria, às cozinhas do mar ou ao vinho, que reúnem entre outros, produtores, artesãos, empresas, academia e centros de conhecimento em torno de uma mesma fileira. Mas são as atividades, os eventos e os profissionais que lhes dão expressão pública, aproximando os produtos dos consumidores e reforçando a sua identidade. A força destes projetos está precisamente aí: não se promove apenas os produtos, mas constrói-se um ecossistema à sua volta, dá-se identidade, explica-se a origem e cria-se valor para todos os intervenientes.

Portugal precisa disto, e precisa depressa. Não haverá salários mais altos sem mais valor acrescentado, e esse valor não nasce de cada empresa a disputar a margem do elo ao lado – nasce de saber vender melhor aquilo que sabemos fazer. É preciso explicar ao consumidor, em conjunto, onde se forma o preço, quanto pesa o transporte, a energia, a produção, a transformação, a logística e a fiscalidade. E é preciso bater o pé em Bruxelas, de onde emana legislação que impacta diretamente os nossos negócios, defendendo aquilo que fazemos bem.

Cabe-nos, cada vez mais, um papel de charneira: criar confiança, aproximar interesses divergentes e transformar fragilidades individuais em capacidade coletiva. A colaboração não elimina o conflito – torna-o produtivo. E já conhecemos bem a alternativa: cada um por si, todos mais fracos.

Porque, no fim, como ensinava Aristóteles, o todo é maior do que a soma das suas partes.

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