Cabo Verde: um pequeno país, uma grande lição

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Quando fui deputada ao Parlamento Europeu, muitas vezes tive de explicar onde ficava Cabo Verde. Acontecia sempre que apresentava esse país como um exemplo de modernização administrativa e defendia que a União Europeia o devia considerar como parceiro privilegiado na cooperação com África. Falava por experiência própria, visto que, enquanto ministra responsável por essa área, tinha acompanhado vários projetos desenvolvidos com Cabo Verde e testemunhado a qualidade das suas equipas.

O mesmo terá sucedido quando os Tubarões Azuis brilharam no Mundial de Futebol – de onde vinham aqueles jogadores que fizeram tremer o Campeão do Mundo?

Para nós, portugueses, antes do 25 de Abril, a visão de Cabo Verde era a de uma colónia pobre, embora conhecida pela sua música e literatura. Não atraía muitos colonos europeus, e o Tarrafal evocava o destino dos presos políticos para um campo de concentração instalado numa das mais belas paisagens do arquipélago. De Cabo Verde partiam trabalhadores para as roças de São Tomé e Príncipe e muitos quadros intermédios para outras colónias.

Depois da independência, sem recursos naturais relevantes, com escassez de água e terras férteis, Cabo Verde escolheu investir nas pessoas e nas instituições. Os resultados são claros: cerca de 85% da população tem acesso a água potável, a esperança média de vida ronda os 74 anos e a taxa de alfabetização situa-se entre 88% e 90%, valores muito positivos na África Ocidental. Num continente onde tantas democracias fracassaram ou enfrentam dificuldades, Cabo Verde construiu instituições constitucionais sólidas, garantiu alternâncias de governo pacíficas e afirmou-se como exemplo de estabilidade política e financeira e de desenvolvimento humano.

Foi esse percurso que a Universidade de Coimbra distinguiu há dias, ao atribuir uma das suas mais altas homenagens ao presidente da República de Cabo Verde, José Maria Neves. Homenageou, sem dúvida, o antigo estudante, mas sobretudo o estadista que, como primeiro-ministro e depois presidente, ajudou a construir este caminho coletivo bem-sucedido.

O momento mais marcante da cerimónia ocorreu no discurso de agradecimento. José Maria Neves emocionou-se, ao recordar a mãe, vendedora no mercado da Assomada, na Ilha de Santiago, que trabalhava arduamente para que os filhos pudessem estudar. Nas lágrimas que lhe interromperam a voz estava a história de um povo que fez da Educação o seu maior património.

Depois, o presidente falou do significado de ser crioulo e da riqueza da diversidade e da mistura cultural - uma lição tão relevante nos tempos que correm.

A sua intervenção revelou visão, cultura e humanidade, confirmando que a homenagem distinguiu não apenas um homem e um político, mas também o exemplo de um país pequeno em território, mas grande na forma como soube construir o seu futuro.

Ex-deputada ao Parlamento Europeu

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