As vidas em jogo

Isabel Mendes Lopes

Líder parlamentar do Livre

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A adição ao jogo é terrível. É uma dependência que arruína pessoas e, por arrasto, as suas famílias. É um problema que se autoalimenta: quando as dívidas se acumulam, o único caminho que parece possível é continuar a jogar na esperança de recuperar o dinheiro, numa espiral de autodestruição que leva ao isolamento e à vergonha e que, muitas vezes, tem finais trágicos. Esta é uma dependência que não é nova – o jogo sempre existiu – mas que hoje toma proporções assustadoras, fruto do crescimento do jogo online.

Antes, para jogar, era preciso sair de casa para ir ao casino, a um salão de jogos ou a uma casa de apostas ou até para ir à papelaria. Hoje o jogo anda connosco no nosso bolso, está disponível 24 horas por dia. É possível jogar durante o horário de trabalho ou de aulas, durante o tempo em que deveríamos estar a dormir, durante os jantares com os amigos. Não é à toa que haja um aumento dos comportamentos de jogo problemático, com 1,3% da população portuguesa com sinais de risco e 0,6% com evidências de dependência, segundo a presidente do Instituto para os Comportamentos Aditivos e as Dependências (ICAD). Este é um problema de saúde pública que afeta demasiadas pessoas e, nunca esquecendo, as suas famílias e amigos. São milhares de pessoas afetadas seriamente pelo risco ao jogo.

A discussão sobre a regulação das dependências não é nova. Hoje é impensável o que era normal há poucas décadas, como fumar nas salas de aula ou no parlamento, ser permitido a uma criança comprar bebidas alcoólicas ou tabaco. Ou ainda ver anúncios a cigarros na televisão ou marcas de tabaco a patrocinar eventos desportivos. Tornou-se consensual que estes produtos com características aditivas e com riscos sérios para a saúde não devem ser proibidos mas que o seu acesso e o incentivo para o seu consumo devem ser regulados e, sobretudo, não fomentados.

É essa a discussão que temos de ter sobre o jogo e sobre as apostas: é preciso garantir que não são promovidos e incentivados, sobretudo junto das pessoas mais vulneráveis – como crianças e jovens. Neste momento são altamente incentivados. A publicidade ao jogo e apostas está por todo o lado: nas fachadas gigantes dos prédios, nos enormes outdoors na autoestrada, nos transportes públicos, nos jogos de futebol, na televisão, em qualquer website, nas redes sociais. Várias personalidades muito acarinhadas pelo público dão a cara por campanhas de apostas online. Os jogadores de futebol têm publicidade a sites de apostas online. Ex-jogadores que lutam contra a sua dependência relatam que se sentem encurralados porque aquilo em que tentam não pensar está, na verdade, em todo o lado.

No início deste mês foi notícia a abertura do primeiro centro só para tratar pessoas com dependência ao jogo, o que é um passo importante dado o aumento de pessoas que procuram esta ajuda. Mas é preciso mais: a prevenção é sempre o melhor investimento. E por isso é que é tão urgente avançar com as restrições à publicidade ao jogo – como já acontece em tantos outros países – para que o incentivo ao jogo deixe de estar omnipresente na nossa vida. O parlamento tem essa responsabilidade nos próximos dias e espero que esteja à altura dela. Para que não continuem mais vidas em jogo.

Linhas de apoio para pessoas com adição ao jogo: 1414 (ICAD) ou 968 230 998 (Instituto de Apoio ao Jogador).

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