O espetáculo de Bad Bunny no intervalo da Super Bowl norte-americano merece certamente várias interpretações políticas. Destaco, no entanto, o recuperar de uma certa raiz da globalização. Ao invocar uma só América através de todos os povos que compõem as várias américas, o alvo foi a Administração Trump e a sombra que paira sobre o ar dos tempos, mas o reflexo é aquilo que melhor caracterizou os EUA enquanto nação de sucesso ao longo das últimas décadas, séculos. Presidentes norte-americanos como Ronald Reagan praticamente nunca o ignoraram e sabiam bem que fechar o país a essa realidade e a “novos norte-americanos” seria perder o seu maior enriquecimento e, por consequência, a liderança no mundo.Enquanto portugueses e europeus, também esteve ali uma resposta às narrativas mentirosas das “portas escancaradas” e aos congéneres do trumpismo por cá. A arte, quando bem feita e aplicada no palco certo, tem destas coisas que a torna suprema no simbolismo e no efeito. Quase sempre para lá de qualquer discurso ou tomada de posição política e correndo o risco de perdurar mais transversalmente no tempo ou no espaço.Recuperar esta raiz da globalização passa também por relembrar o que foram os períodos mais conturbados e o caminho eficaz que se prosseguiu desde então. Do 11 de Setembro de 2001 nos EUA, aos atentados em Madrid e Londres poucos anos depois, a Europa tem sido muito bem-sucedida em eliminar as ameaças terroristas e o extremismo religioso em nome destes. Ao contrário do que demasiadas vezes fazem crer os partidos de extrema-direita no continente. Hoje, grande parte dos relatórios de segurança e defesa da União Europeia e para os quais a opinião pública portuguesa deveria olhar mais, indicam que o grande perigo começa a vir de dentro. Tal como nos EUA. Dos grupos ultranacionalistas à extrema-direita, ao nazismo e antissemitismo, cujas ideologias não estavam tão banalizadas como desde o final da II Guerra Mundial.Confundir, em Portugal, a necessidade de regular muito melhor a imigração, a urgência de serviços mais eficientes, menos datados e inexplicavelmente demorados na legalização com a fiscalização e o que indiciaria supostas “portas escancaradas” num passado recente, é não só perigoso e mentiroso. É contra os interesses do país. O tempo também se encarregou de mostrar isso de forma urgente e acelerada.Só falta o Governo mudar o chip e perceber que o que não interessa hoje são, aqui sim, portas escangalhadas em nome da politiquice.