As guerras longe podem ser surpreendentemente próximas

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Os portugueses gostam da ideia de globalização. Na verdade, até deram um grande contributo para a sua primeira versão, há cinco séculos, quando a descoberta do Caminho Marítimo para a Índia por Vasco da Gama, somada à descoberta da América por Cristóvão Colombo, pôs todos os continentes a comunicarem entre si com surpreendente facilidade. Foi uma aventura tão multifacetada, essa da expansão marítima, que a ilha iraniana de Ormuz, que dá nome ao estreito que controla o acesso ao Golfo Pérsico, chegou a ser portuguesa mais de 100 anos. E lá ficou a fortaleza.

Faz parte da lógica da globalização, entendida como a circulação de bens e de pessoas, e de ideias, que nada do que se passa longe, seja efetivamente longe. Veja-se o impacto da atual guerra no Irão, iniciada com um ataque dos Estados Unidos e Israel a 28 de fevereiro. Lisboa bem pode ficar a mais de 5000 quilómetros de Teerão, portanto longe dos mísseis e dos drones que atravessam hoje, nos dois sentidos, o Estreito de Ormuz, mas os portugueses já sentem nos preços dos combustíveis o impacto de uma guerra da qual se sabe quando começou, mas não se tem ideia de quando terminará. A economia vai ser afetada, mesmo que a aposta nas renováveis defenda um pouco o país. Só um pouco.

Americanos e israelitas insistem em bombardear o Irão, seja para o impedir de ter a bomba nuclear, seja para derrubar um regime que há quase meio século que é inimigo de ambos, enquanto os iranianos, pelo menos o tal regime dos ayatollahs que os governa, aposta na resistência, retaliando contra Israel e as bases americanas no Golfo Pérsico, e também contra os próprios países árabes que alojam instalações militares dos Estados Unidos. O Irão recorre igualmente a ameaças à navegação no Estreito de Ormuz para tentar destabilizar os mercados petrolíferos e fazer o barril ultrapassar os 100 dólares, com consequências no preço que se paga pelo gasóleo e pela gasolina. É uma estratégia deliberada.

"Lisboa bem pode ficar a mais de 5000 quilómetros de Teerão, portanto longe dos mísseis e dos drones  que atravessam hoje, nos dois sentidos, o Estreito de Ormuz, mas os portugueses já sentem nos preços dos combustíveis o impacto de uma guerra da qual se sabe quando começou, mas não se tem ideia de quando terminará."
"Lisboa bem pode ficar a mais de 5000 quilómetros de Teerão, portanto longe dos mísseis e dos drones que atravessam hoje, nos dois sentidos, o Estreito de Ormuz, mas os portugueses já sentem nos preços dos combustíveis o impacto de uma guerra da qual se sabe quando começou, mas não se tem ideia de quando terminará."Royal Thai Navy / Handout

Para já, até parece que o impacto no bolso dos portugueses desta guerra a 5000 quilómetros é maior do que o da invasão da Ucrânia pela Rússia em 2022, apesar de Kiev distar de Lisboa uns 3300 quilómetros. Mas não esquecer a inflação que chegou na época via resto da Europa, assim como o impacto indireto do fim do abastecimento de gás russo a colossos industriais como a Alemanha, um dos nossos grandes parceiros económicos. É quase impossível não haver impacto quando há guerra algures e ela se perpetua. Por exemplo, os ataques dos houthis a Israel, em apoio ao Hamas após os ataques de 7 de outubro de 2023, e sobretudo aos navios mercantes que navegavam no Mar Vermelho, obrigou companhias de navegação a trocarem a rota do Suez, mais curta, pela do Cabo da Boa Esperança, com o inevitável aumento dos custos de transporte a refletir-se nos produtos, em especial os vindos da Ásia.

Claro que há guerras que nos afetam, em teoria, menos do ponto de vista económico, como alguns conflitos em África, seja no Sudão, seja na República Democrática do Congo, mesmo que do ponto de vista da consciência não seja nada confortável saber que há quem morra na região dos Grandes Lagos Africanos por causa da cobiça pelos metais raros que permitem produzir baterias para os telemóveis que trazemos no bolso do casaco. Mas esse afetar menos é sempre ilusório, basta pensar em como a longínqua guerra civil na Síria trouxe um milhão de refugiados para a Europa só em 2015, com um impacto até hoje sentido na Alemanha, onde um partido hostil à imigração é já a segunda força no Parlamento. Ou como as várias guerras esquecidas em África destroem as esperanças de muitos jovens de construírem uma vida no próprio país e, assim, empurram para uma emigração desesperada (nem por isso bem-vinda para muitos) para a Europa, atravessando desertos antes da derradeira aventura de cruzarem o Mediterrâneo, geralmente enquanto são explorados por mafias que traficam seres humanos.

Esperemos que a guerra na Ucrânia termine em breve, e que esta no Irão também não se eternize. Que a diplomacia funcione e que haja soluções. Funcionais, concretas. Primeiro que tudo, para que as populações não vivam num quotidiano de medo. Mas também para que a globalização se volte a sentir, sobretudo, pelas boas razões e não pelas más. Não tenhamos dúvidas de que o que se passa do outro lado do mundo pode atingir os recantos mais distantes, mesmo este recanto até hoje tranquilo no oeste da Europa, ainda que nada seja comparável a estar sob bombas.

Um alerta dos riscos, aliás, foi feito por Robert Kaplan, especialista geopolítico americano, numa entrevista há poucos meses ao DN. Referindo-se a um dos grandes focos de tensão no mundo, um outro estreito, o de Taiwan, até compara o possível impacto de uma guerra aí com as guerras na Europa e no Médio Oriente (a de Gaza, não esta agora no Irão): “Se tivéssemos uma guerra no Pacífico entre as duas ou as três maiores economias do mundo, e falo dos Estados Unidos, da China e do Japão, por causa de Taiwan, ou por causa do Mar do Sul da China, o que for, as pessoas olhariam para as suas contas bancárias, para os seus investimentos, e veriam uma queda dramática. Os mercados financeiros mundiais incorporaram o impacto das guerras na Ucrânia e em Gaza. Mas não poderiam fazer o mesmo para uma guerra no Pacífico. Isso mudaria o nosso mundo. Os mercados iriam declinar dramaticamente. E os bancos centrais não teriam os meios para corrigir. Porquê isso? Porque teríamos uma guerra entre as duas ou as três maiores economias do mundo. Os Estados Unidos, a China e o Japão são as maiores economias. Teríamos uma guerra sobre as redes de abastecimento, as redes de abastecimento mais importantes. Teríamos uma guerra sobre as principais rotas marítimas de comércio. No Mar do Sul da China e Taiwan. À medida que a economia mundial passou a ter um centro geográfico, esse centro foi crescentemente no Pacífico. Por isso eu digo que uma guerra no Pacífico mudaria as nossas vidas e o nosso mundo muito mais dramaticamente do que o que aconteceu com as guerras na Ucrânia ou no Médio Oriente.”

Preocupante. Um relembrar que o mundo está interligado, cheio de tensões a envolver as potências. E que ignorar o que acontece longe não só é fechar os olhos ao sofrimento, mas pode trazer surpresas.

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