A Avenida Almirante Reis já viu mudar lojas, transportes e vizinhos. Há quem continue na mesma casa há décadas. Para essas pessoas, poder ir à farmácia, atravessar a rua em segurança ou ter um filho que as venha buscar à porta não são pormenores, é a diferença entre viver a cidade e apenas morar nela.
Discute-se o futuro através do trânsito, das árvores, do estacionamento e das bicicletas. Tudo importa, mas antes de decidir como se atravessa a Almirante Reis, é preciso perceber como se vive nela. Uma rua também é a casa de alguém.
No census de 2021 de Arroios, 21,1% dos 42.132 residentes tinham 65 ou mais anos, são quase nove mil pessoas.
Estes não podem ser um detalhe acrescentado no fim do projeto, porque são parte do ponto de partida.
Quem caminha devagar precisa de espaço para se cruzar com quem tem pressa. O mesmo vale para bengalas, cadeiras de rodas e carrinhos de bebé. Passeios largos, travessias seguras, sombra e bancos não são luxo. São a diferença entre circular e deixar de o fazer.
A Câmara prevê retirar 170 lugares tarifados da avenida e disponibilizar 275 na envolvente. A conta parece positiva, mas um lugar num parque a uma distância enorme da porta, não substitui a facilidade que a tomada e largada de passageiros nas proximidades da porta permitia. O mapa não conhece cansaço, já que uma distância pequena pode separar a autonomia da dependência.
O diagnóstico municipal identifica cerca de 1200 bicicletas por dia no eixo e em 2025 a CCDR-LVT estimava uma quota de 1% a 2% das deslocações de Lisboa. É um modo de transporte que merece segurança, porém quantas dessas viagens começam ou acabam nos bairros? Quantas são de passagem? Sem dados de origem e destino, contamos bicicletas, mas desconhecemos o benefício para os moradores.
Aqui nasce um paradoxo, já que combatemos o trânsito automóvel de atravessamento, mas celebramos as contagens cicláveis como se, por si só, provassem que o bairro ganhou. Os impactos são diferentes, claro, mas circulação não é sinónimo de qualidade de vida local.
Há um paradoxo ainda mais humano. Combatemos a gentrificação. Porém de que vale defender o direito a ficar se não cuidarmos das condições para sair?
O PSD de Arroios tem ajudado a colocar estas questões no debate e a mobilizar os moradores. É um contributo contra o falso duelo entre ciclistas e automobilistas, já que a mobilidade deve servir as pessoas, e não transformar-se num campo de batalha.
Lisboa precisa de transportes públicos melhores, passeios amplos e ciclovias seguras. Projetar o futuro não é obrigar quem cá vive a caber numa cidade utópica.
Lisboa é uma casa de muitas gerações e a luta contra a gentrificação não é só no direito à casa, é também no direito a viver o bairro à sua volta e o acesso à sua porta.
Podemos abrir-lhe janelas para o futuro, mas não estreitar as portas a quem já lá vive. Porque o passo mais lento que hoje ignoramos poderá, um dia, ser o nosso.