A impressionante derrota eleitoral de Viktor Orbán nas eleições húngaras – um líder que desafiou repetidamente os valores e as regras da UE – representa para Bruxelas mais do que o fim de um impasse institucional.Trata-se de uma dupla vitória política da União: contra a autodesignada “democracia iliberal” e a direita populista, com o retorno ao modelo europeu da democracia liberal e do Estado de Direito; e contra os dois “patronos” externos de Órban, em Moscovo e em Washington, ambos apostados em instrumentalizar Budapeste como fator de enfraquecimento da União.Por isso, a vitória da oposição europeísta húngara é vista como a possibilidade de desbloquear decisões importantes, nas relações com a Ucrânia ou nas questões energéticas, e de recuperar um funcionamento mais previsível e cooperativo no Conselho Europeu.É legítimo questionar como Péter Magyar – ele próprio um conservador de direita – irá posicionar se na sua interação com a UE; e existem certamente explicações pragmáticas para os resultados das eleições húngaras, incluindo a expectativa de que o desbloqueamento dos fundos europeus devolva ao país alguma folga financeira. Mas é claro que ele foi eleito por uma maioria diversificada, unida sobretudo contra Orbán e contra o rumo que o seu governo tomou nos últimos anos, designadamente no confronto com Bruxelas.Num mundo onde regimes autocráticos e nacionalistas se tornam mais normalizados, a mudança política na Hungria, ocorrida de forma tão expressiva e com tão elevada participação cívica, ganha, portanto, maior relevância.A UE retoma, assim, a integridade e consistência democrática que a Hungria de Orbán afrontava. Sem essa unidade de propósitos, a UE não pode enfrentar devidamente o desafio da perda de centralidade económica e geopolítica, a hostilidade de Moscovo e de Washington, a emergência da China como potência geoestratégica ou o impacto de novas rotas comerciais e de recursos que deslocam o centro de gravidade global para regiões onde já esteve no passado, como recentemente tive oportunidade de verificar numa visita a um país da Ásia central.Apesar de todas essas ameaças, a Europa continua a ser um espaço invejável de liberdade, de proteção das pessoas e de defesa dos direitos, um lugar onde é seguro e bom viver. Esse é um seu valor distintivo muito importante no panorama mundial. É também por essa razão que tantos procuram entrar na UE e que vários países continuam a desejar integrar o projeto europeu.A Hungria tornara-se, nos últimos anos, um símbolo do retrocesso democrático dentro da União e de confronto com os seus valores. Por isso, esta mudança de governo é interpretada como um sinal de que esse ciclo pode inverter-se, reforçando a coerência interna da UE no domínio da democracia e do Estado de Direito, e na sua afirmação externa. A derrota de Orbán é, nesse sentido, mais do que uma mudança nacional: é um capítulo simbólico na história política da própria União Europeia.