Ao assinalarmos quatro anos de uma invasão brutal e mal calculada, a realidade impõe-se, fatalmente, como esta semana lembrou no editorial do DN Leonídio Paulo Ferreira: a guerra na Ucrânia já dura há mais tempo do que a participação soviética na Segunda Guerra Mundial (1941-1945) frente às tropas nazis. Para quem foi educado na propaganda do "Exército imparável" liderado por Moscovo, todo este tempo é uma humilhação. Mas para quem compreende a realidade histórica – pelo menos dos últimos 150 anos – do poder russo, é apenas a confirmação de uma verdade, para muitos, inconveniente: a Rússia contemporânea é (e na verdade sempre foi) um gigante de pés de barro.A primeira falha estrutural da Rússia é o seu desprezo pela competência. Tanto no lodo soviético, como no regime cleptocrático de Putin, a ascensão ao poder não depende do mérito, mas da vassalagem. Num sistema em que a lealdade ao autarca ou ao oligarca é a única moeda de troca, a corrupção deixa de ser um vício para se tornar o próprio motor do Estado. O resultado está à vista: um Exército que consome biliões de rublos, mas que no terreno se revela uma força desorganizada, dependente de táticas de saturação do século passado, porque a inteligência e a precisão foram roubadas por generais em iates no Mediterrâneo.Depois, há a mentira permanente. Até a narrativa de que a URSS derrotou o nazismo sozinha é uma das maiores fraudes intelectuais da História Moderna, ainda hoje perpetuada pelos “idiotas úteis” Ocidentais – os mesmos que o ex-agente do KGB Yuri Bezmenov explicou, nos anos 80, que seriam os primeiros a ser executados caso o comunismo conquistasse o poder. A verdade histórica é que a "Grande Guerra Patriótica" soviética só teve êxito graças ao programa Lend-Lease dos EUA. Os números são objetivos, embora o Kremlin os tente apagar: entre 1941 e 1945, os americanos enviaram para a URSS mais de 400.000 jipes e camiões, 14.000 aviões, 13.000 tanques e quase 5 milhões de toneladas de alimentos. E mais do que armas, os EUA forneceram a logística (incluindo 2,6 milhões de toneladas de produtos petrolíferos e 300.000 toneladas de explosivos) que permitiu ao Exército Vermelho mover-se. Sem este "oxigénio" Ocidental, o gigante soviético teria morrido asfixiado. Os EUA forneceram a logística que permitiu à URSS resistir e, ajudada pelo feroz inverno e por pesadas baixas humanas, derrotar os nazis.Hoje, a História inverteu-se com uma ironia mordaz: a Ucrânia é o novo baluarte da liberdade apoiado pelo Ocidente, enquanto a Rússia mendiga drones ao Irão e munições obsoletas à Coreia do Norte.Esta incapacidade estratégica de Moscovo é compensada por uma brutalidade fria. Putin personifica a "Visão dos Ungidos", de Sowell: a crença de que uma elite iluminada pode moldar o mundo à força, ignorando os custos humanos. É o oposto da "Visão Restrita", que reconhece a sacralidade da vida individual. O mundo percebeu-o logo em 2000, perante o horror do desastre do submarino Kursk. Margaret Thatcher, numa entrevista à BBC, denunciou então a natureza do regime, criticando a recusa criminosa de Moscovo em aceitar ajuda internacional imediata para salvar os seus próprios marinheiros. Para Putin, tal como todos os seus antecessores coletivistas (com possível exceção de Gorbachev), o ser humano é apenas combustível para o império.Esta falência moral é absoluta perante qualquer ética decente, smithiana. Adam Smith ensinou-nos que a moralidade depende do "espectador imparcial" e da empatia. Mas, no Kremlin, há mais de um século que a empatia foi substituída por uma psicopatia de Estado que vê no seu próprio povo nada mais do que "carne para canhão", descartável em nome de delírios territoriais.Incapaz de vencer pelo mérito, a Rússia utiliza agora a sua última e mais vil ferramenta: a população implantada. A deportação forçada de ucranianos e a sua substituição por cidadãos russos em cidades como Mariupol não é apenas um crime de guerra; é uma tentativa de alteração demográfica profunda. É a criação de uma bomba-relógio social, um cancro demográfico desenhado para impedir a paz.A Rússia parece condenada a repetir os erros de um passado que se recusa a enterrar, preferindo reescrevê-lo permanentemente. Daí o ditado popular: "A Rússia é um país com um futuro radiante. É o seu passado que é imprevisível." Enquanto o Estado for um fim em si mesmo e o indivíduo um simples recurso, como Putin e quem o rodeia querem perpetuar, o povo russo nunca terá um futuro. O gigante continua a marchar, mas o seu rastro de sangue indica que o seu destino não é a glória, mas um colapso cíclico que arrasta o mundo para a infelicidade.