Guerra na Ucrânia. Quatro anos e mais quanto tempo?

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O alemão Carlo Masala não quis escrever uma ficção distópica, mas sim um alerta ficcionado, seguido de um epílogo que é um pequeno ensaio explicativo: se a Rússia vencer a guerra na Ucrânia não se vai ficar por ali, é a sua tese. Haverá, prevê, uma expansão territorial russa, incorporando, no início, populações russófonas deixadas para trás com a desagregação da União Soviética em 1991. Se a Rússia vencer - um cenário é o título do livro, agora traduzido em português.

A ficção/ensaio de Masala, um académico que ensina na Universidade das Forças Armadas alemãs, em Munique, vale muito a pena ser lido. Sem necessidade de puxar demasiado pela imaginação, só relatando aquilo que costuma ser a prática tanto nos círculos de decisão do Kremlin, como da NATO, transforma a questão da resposta a uma fictícia incursão militar russa no leste da Estónia, em março de 2028, num debate sobre se será o início da Terceira Guerra Mundial. E perante a incerteza do nível (nuclear ou não) da contrarresposta russa, a NATO acaba por não aplicar o artigo 5.º nesse cenário imaginado.

Não só há hesitação dos poderosos, como até a questão de se os países do Sul, como Itália, Portugal e Espanha, estarão dispostos a enviar soldados para combater por um recanto estónio. Pelo contrário, tanto os outros países bálticos como a Polónia, com um longo historial de guerras com a Rússia, defendem uma retaliação, provavelmente por temerem ser os próximos.

No livro de Masala, cuja primeira versão terminou de ser escrita há um ano, parte-se, portanto, da ideia de que, em março de 2028, a guerra na Ucrânia já teria terminado, com sucesso da Rússia, cujos ganhos teriam vindo da incapacidade de europeus e americanos ajudarem a resistência dos ucranianos.

O alerta feito é esse mesmo: ganhe a Rússia na Ucrânia e haverá novas ucrânias, razão pragmática pela qual tudo deveria ser feito para que a Rússia não ganhasse.

Um alerta que é um apelo do autor para que Kiev não seja abandonada na sua luta contra Moscovo, seja porque os Estados Unidos dão prioridade a uma negociação de paz, seja porque os países da União Europeia decidiram investir em Defesa, mas adiando na medida do possível, e por vezes por falta de alternativa, a concretização do novo poder militar.

"O que não é surpresa é a mortandade. De um lado e do outro. Os números são mantidos secretos, ou então atirados pelo inimigo para lançar o desânimo, mas serão certamente impressionantes."
"O que não é surpresa é a mortandade. De um lado e do outro. Os números são mantidos secretos, ou então atirados pelo inimigo para lançar o desânimo, mas serão certamente impressionantes."Mykola Tys / EPA

Cumprem-se hoje quatro anos exatos sobre a invasão russa da Ucrânia. Certamente que houve surpresas, em sentido contraditório, desde o fracasso do passeio dos tanques russos até Kiev, até à capacidade da Rússia em resistir à retaliação mista do Ocidente, com sanções económicas a Moscovo, por um lado, e apoio material ao esforço de guerra da Ucrânia.

O que não é surpresa é a mortandade. De um lado e do outro. Os números são mantidos secretos, ou então atirados pelo inimigo para lançar o desânimo, mas serão certamente impressionantes. A maior evidência disso é a necessidade de novos recrutas e a dificuldade de os conseguir, por ambos os beligerantes. Longe da frente de batalha, os dois países, sobretudo a Rússia, até podem tentar manter a ilusão de que tudo funciona, mas consequências dos combates no Donbass vão sentir-se durante décadas depois da guerra acabar.

E quando acabará? Numa data qualquer antes de 2028, como prevê Masala? Um outro alemão, o chanceler Friedrich Merz, cujo país lidera o esforço de rearmamento europeu, disse agora, em jeito também de alerta, mas com terrível pragmatismo, que “esta guerra não vai parar até que ambos os lados estejam exaustos, militar ou economicamente”.

O jornal Le Monde, que na edição datada de hoje analisava o impasse na guerra e também o impasse na NATO sobre o que fazer, sublinhou que a frase dita, alto e a bom som, por Merz na Conferência de Segurança de Munique é o que pensam muitos chefes militares. Também citado pelo jornal francês, Elie Tenenbaum, diretor do Centro de Segurança do Instituto Francês de Relações Internacionais (IFRI), resumiu a situação no terreno assim: “Os dois lados estão em chamas, mas a questão é qual deles está a arder mais rapidamente. É a mesma corrida, algo cínica, que se vive desde 2022.”

O sistema russo, onde Vladimir Putin tem um poder inquestionável, parece dar vantagem a Moscovo nesta descida partilhada aos infernos, pois Volodymyr Zelensky tem de lidar com o escrutínio tanto dos ucranianos, como dos aliados Ocidentais, mas no final, até ver, o resultado é a tal destruição mútua.

O que torna ainda mais urgente negociações sérias, destinadas a travar o círculo de morte e destruição, mesmo que se saiba à partida que Rússia e Ucrânia partem de posições inconciliáveis, a primeira a ter já anexado oficialmente territórios de outro país e a segunda a defender a sua soberania. Qual o caminho para essas negociações sérias, não mero ganhar de tempo por uns ou outros, depende muito da capacidade de americanos - aqui Trump conta muito -,e europeus decidirem uma ação conjunta que obrigue a Rússia a repensar a estratégia e dê condições à Ucrânia para ver uma luz ao fundo do túnel.

Era importante também que a China, que pretende ser vista como um ator de peso e responsável na cena internacional, faça sentir à aliada russa que em algum momento a paz tem de regressar. Só assim se ilibará da suspeita que tira vantagens da guerra na Europa, seja por comprar petróleo a preço de amigo ou, a outro nível, por esta desviar as atenções da sua ascensão.

O sucesso dessa ação para acabar com a guerra depende também daquilo que os aliados da Ucrânia estão dispostos a fazer pela sua soberania e segurança no futuro. Convinha entenderem-se ou ficarão para a História como tendo incentivado a resistência dos ucranianos para depois os deixarem essencialmente sós numa guerra que é desigual.

Quatro anos! É quase tanto como a Primeira Guerra Mundial. E é mais do que durou a guerra dos soviéticos contra os nazis depois da invasão da União Soviética pela Alemanha em junho de 1941, em plena Segunda Guerra Mundial.

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