Circulou recentemente no WhatsApp e nas redes um texto em castelhano, mais um entre tantos, sem autor e com ar de dossier confidencial. Diz isto: em 2001 a Rússia pôs-se generosamente ao serviço de Washington contra o terrorismo; em troca, a NATO humilhou-a com o maior alargamento da sua história; Putin, leão ferido, reagiu invadindo a Crimeia em 2008 e foi punido com sanções; a China aprendeu a lição, esvazia hoje a dívida americana e prepara Taiwan; e o Ocidente já perdeu.
Chega-me com frequência, em versões diferentes. Vale a pena pegar nessas afirmações uma a uma, pela ordem em que as serve.
Que a Rússia se pôs ao serviço dos Estados Unidos em 2001 é meia verdade. Não houve generosidade, houve interesse coincidente. Moscovo travava a sua guerra na Chechénia e tentava reclassificá-la, aos olhos do mundo, como guerra colonial para combate ao terrorismo. O 11 de Setembro deu-lhe esse enquadramento, e Putin, ao ser o primeiro a telefonar a Bush, comprou silêncio sobre Grozni. Foi um bom cálculo, não foi um favor.
Diz o texto que a NATO lhe fechou a porta. É falso, e tenho testemunho directo: abriu-a de par em par, e eu estive lá para ver. O Conselho NATO-Rússia, criado em Roma em 2002, sentava Moscovo à mesa em terrorismo, não-proliferação e gestão de crises, com missão permanente em Bruxelas, exercícios conjuntos e acesso a quase tudo. Não éramos ingénuos: quem conhecia as velhas práticas manteve sempre um pé atrás, sobretudo com os militares e com o GRU, e houve comportamentos intrusivos que não deixavam dúvidas sobre o que alguns daqueles oficiais ali faziam. Mas havia, dos dois lados, gente imbuída de cooperação genuína, reforçada pelo inimigo comum. Se a parceria não vingou, não foi por a termos fechado, foi porque houve quem preferisse tratá-la como acesso e não como aliança.
Que o alargamento de 2004 foi uma humilhação imposta é uma inversão. Ninguém foi arrastado para dentro da Aliança: foram Estados soberanos que pediram para entrar, depois de meio século a saber o que era estar do outro lado. Chamar humilhação à decisão livre de outros povos é conceder a Moscovo um veto sobre as escolhas dos vizinhos, que é a premissa que se pretende que aceitemos.
Que a Rússia invadiu a Crimeia em 2008 é falso. Em 2008 invadiu a Geórgia; a Crimeia foi anexada em 2014, seis anos depois. E não houve sanções severas em 2008: houve o reset de Obama, em 2009. Trocar estas datas não é descuido, porque só a sequência errada permite apresentar a agressão como reacção. E o que mudou entre 2001 e 2008 não foi o comportamento Ocidental, foi o preço do petróleo, que passou de 20 para 147 dólares por barril. Não foi a humilhação que produziu Munique e a Geórgia, foi o dinheiro que as tornou possíveis.
Que a Europa acossou a Rússia é o exacto contrário do que aconteceu. Enquanto Moscovo já operava com reserva mental, Berlim e Paris fizeram tudo para manter viva uma relação que do outro lado já não existia. Foram Merkel e Sarkozy a travar, em Bucareste, a adesão da Ucrânia e da Geórgia para não incomodar o Kremlin. Foi a Alemanha a aprofundar o Nord Stream depois da Crimeia, até depender da Rússia para mais de metade do gás importado. Foram os Acordos de Minsk a congelar um conflito nos termos do agressor. Foi Macron a tentar, ainda em 2019, um reengajamento com Putin. Nada disto foi hostilidade: foi apaziguamento, e deu a Putin o que ele precisava, tempo e espaço para a expansão neo-imperial.
Que a China esvazia a dívida americana para preparar Taiwan usa números verdadeiros para dizer coisa falsa. As detenções chinesas caíram, mas o máximo foi em 2013, quase uma década antes da guerra da Ucrânia, e os títulos em custódia noutros países aparecem contabilizados nesses países. A China saiu das estatísticas, não saiu do dólar. E se é para olhar para Pequim, olhe-se para o que Pequim já fez à Rússia, que é o desfecho que a narrativa nunca conta: Moscovo não ressuscitou como potência, tornou-se vassala, vendendo petróleo com desconto a quem dita o preço. A vassalagem estraga a história do leão, por isso nunca aparece.
Repare-se no que sobra. Quase tudo é verdadeiro em bruto e falso na ordem em que é servido. Não é desinformação em sentido estrito, é malinformation: factos reais retirados do contexto até produzirem uma conclusão que nenhum deles autoriza. É por isso que a verificação de factos tropeça aqui: há pouco para desmentir e tudo para recontar.
E percebe-se para que serve. Não foi escrito para nos convencer de que a Rússia tem razão, mas de que resistir é impossível. É desmobilização, e o alvo é a nossa vontade. Contra isso é preciso detecção, atribuição e resposta, e uma coisa mais modesta e mais permanente: contar outra vez, e outra vez, e outra vez.
A História não se defende sozinha. Quem a deixar por contar não fica com um vazio, fica com a versão do adversário.
Escreve sem aplicação do Acordo Ortográfico